03/02/2018

Um diaconado renovado completa a Igreja

Nos últimos séculos, o diaconado gozou apenas de um papel simbólico ou de transição na Igreja. O clero paroquial é ordenado ao presbiterado só depois de servir brevemente no diaconado. É como se os diáconos esperassem «seguir em frente!» ou «moverem-se para cima!». O diaconado foi reduzido a pouco mais do que uma preparação ou premissa para o presbiterado ou para o episcopado. Os dois últimos degraus são muitas vezes considerados mais significativos no ministério ordenado, enquanto o diaconado se assemelha a um tipo de sub-presbiterado, raramente percebido como uma função permanente.
Mas não foi sempre esse o caso. Juntamente com o bispo e os presbíteros, os diáconos foram considerados por Inácio de Antioquia, no final do século I, parte essencial da estrutura da igreja, que realiza sua unidade  de forma mais completa e abrangente  quando a comunidade está «com o bispo e os presbíteros e os diáconos que estão com o bispo... Sem eles», acrescenta Santo Inácio, «[a comunidade] não pode ser chamada de igreja» (Carta aos Tralianos).
São João Crisóstomo lembra-nos o modo como a Igreja primitiva enetndeu os diáconos quando observa: «até os bispos são chamados de diáconos» (Homilia sobre a Carta aos Filipenses, 1). Na verdade, no tempo dos apóstolos, não há indicações de que o diaconado fosse uma condição ou requisito para a elevação ao presbiterado. É por isso que estou convencido de que não pode haver uma compreensão clara do presbiterado  ou mesmo do episcopado  se não apreendermos e apreciarmos primeiro o diaconado em si mesmo. Assim, no início do século VII, Isidoro de Sevilha afirmou corajosamente que, sem o ministério dos diáconos, o presbítero tem o nome, mas não o oficio; o presbítero consagra, reza e santifica; mas o diácono dispensa, recita e partilha (De Ecclesciasticis Officiis).
Uma visão mais completa do ministério ordenado tem de reconhecer o papel do bispo como o vínculo da unidade e o porta-voz para a doutrina. Da mesma forma, tem respeitar o papel do presbítero na celebração da presença de Cristo na comunidade local. No entanto, também tem de perceber o papel do diácono como servidor que completa e complementa esse círculo de unidade e comunidade na Igreja local. O serviço dos diáconos vai além da liturgia e chega à comunidade como um dom na administração, na educação, na orientação pastoral e espiritual e no trabalho juvenil. E, na minha opinião, esses papeis podem ser facilmente realizados tanto por homens como por mulheres.
A nossa teologia do ministério ordenado  atualmente vista como uma pirâmide com o episcopado no topo  tem de ser invertida, começando não de cima para baixo, mas brotando da noção elementar e essencial da diaconia; refletindo aquele que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida» (Mc 10, 45); serviço e sacrifício sem os quais nenhuma das ordens sacerdotais faz qualquer sentido. Qualquer revolução na nossa apreciação e realização do ministérios ordenado, em toda a sua amplitude e diversidade, em última análise, virá de baixo para cima, a partir das bases. É aí que os nossos fiéis sabem o que importa e o que funciona na igreja. É também aí que os nossos fiéis percebem as dimensões e as implicações mais amplas do ministério pastoral. É por isso que é crucial que ocorra uma revitalização do diaconado, tanto para uma reorientação do nosso ministério ordenado como para uma revitalização do nosso ministério pastoral.
Agora, ao mesmo tempo que mantém um sentido de simetria dentro do ministério ordenado, o diaconado também mantém um equilíbrio de poder na Igreja. Creio que está aqui o coração do problema: a resistência feroz da Igreja a qualquer desafio à sua atual autoridade institucional. Temos de aprender a procurar uma atitude de humildade e não de poder, a praticar formas eclesiais impregnadas pela simplicidade e não pela cerimónia, a manter uma visão de transformação da Igreja de uma organização hierárquica numa comunidade de serviço, sem nostalgia do passado, mas com abertura em relação ao Reino.
Sem diáconos, uma paróquia torna-se progressivamente insular em vez de católica, mais paroquial do que global. Os diáconos asseguram a dimensão universal da igreja. Os diáconos são, de muitas maneiras, o elo que falta na preservação da plenitude da doutrina da Igreja ou, no mínimo, na prevenção de um certo «monofisismo» na igreja institucional. Bem sabemos que a Igreja prega um Deus  entendido como Trindade e uma Igreja concebida como comunidade.
Se entendermos adequadamente o diaconado, também entenderemos melhor as outras ordens do ministério ordenado. Compreendemos porque é que e as mulheres podem naturalmente  com isto quero dizer, segundo a tradição e não como exceção — participar do diaconado sem que tal provoque receio da sua ordenação para o presbiterado ou da discussão teológica anterior sobre o ministério ordenado masculino. O diálogo sincero sobre o ministério ordenado só pode enriquecer o nosso apreço tanto por ele como pelo sacerdócio real. E «se essa ideia ou obra é de origem humana, falhará; mas se for de Deus, ninguém poderá derrubá-la" (At 5, 38-39).
Desta forma, o diaconado será expandido e potenciado de modo a refletir uma expressão ministerial moderna, se bem que enraizada na experiência apostólica histórica. Afinal, para além da administração e da autoridade na Igreja, há o serviço e... o servir. Para além da observância da liturgia e dos sacramentos, está a atenção às pessoas, qual altar vivo do Corpo de Cristo. Talvez os diáconos despertem gradualmente outros ministérios novos, não restritos às funções e expectativas tradicionais. Um renascimento criativo do diaconado para homens e mulheres no nosso tempo pode converter-se em fonte de ressurreição para o ministério ordenado como um todo, desempenhando assim um papel crucial na mais ampla missão da Igreja. A este respeito, a restauração do diaconado pode bem revelar-se tão oportuna quanto vital.

John Chryssavgis
Diácono da Diocese Ortodoxa Grega da América
Public Orthodoxy (1 dez 2017)

01/02/2018

Roteiro Ecuménico de Oração 2018


No seguimento de edições anteriores, a Comissão Ecuménica do Porto apresentou no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o Roteiro Ecuménico de Oração para o ano 2018 para a cidade do Porto.
Em janeiro de 2018, numa declaração conjunta assinada pelo presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, Cardeal Angelo Bagnasco, e pelo presidente da Conferência das Igrejas Europeias, o Bispo Anglicano Christopher Hill, exortaram as comunidades dos vários países europeus a “perseverarem no caminho ecuménico” e a fazerem da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, uma ocasião para “gerar esperança nova”.
O novo roteiro é em si uma proposta para que as diversas Igrejas e cristãos do grande Porto partilhem entre si e ao longo de todo o ano os dons espirituais e materiais dados por Cristo. Neste sentido e através de celebrações e encontros em conjunto, haverá uma partilha da riqueza espiritual de cada tradição eclesial na vivência especifica de cada proposta. 
O Roteiro Ecuménico 2018 proporciona aos cristãos das diferentes confissões, interessados na busca da unidade entre os cristãos, um caminho de conhecimento da diversidade eclesial e relação fraterna.
Na Carta Ecuménica para a Europa de 2001, foi assumido o compromisso de celebrar juntos a mesma Fé na vivência das diferentes tradições eclesiais, rezar uns pelos outros e pela unidade dos cristãos, em aprender a conhecer e a apreciar as celebrações e as outras formas de vida espiritual das outras Igrejas.
Neste sentido, a Comissão Ecuménica do Porto a todos lança o desafio de participarem com alegria neste roteiro.

11/01/2018

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2018


A tua direita, Senhor,
resplandeceu de poder
(Ex 15,6)

Subsídios preparados e publicados em conjunto pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas.

As Igrejas do Caribe foram escolhidas para preparar o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018. O Caribe atual está profundamente marcado pelo projeto pouco respeitoso da exploração colonial. Muito lamentavelmente, durante quinhentos anos de colonialismo e escravidão, a atividade missionária cristã na região, com exceção de uns poucos destacados exemplos, esteve muito ligada a esse sistema de cunho desumano e justificava-o e reforçava-o de muitas maneiras. Enquanto aqueles que levaram a Bíblia para essa região usavam as Escrituras para justificar a subjugação do povo dominado, nas mãos dos escravizados ela tornou-se uma inspiração, uma garantia de que Deus estava do lado deles e de que Deus os conduziria à liberdade.
Hoje os cristãos caribenhos de diferentes tradições veem a mão de Deus a agir para pôr fim à escravidão. É uma experiência de união em torno da ação salvadora de Deus que leva à liberdade. Por essa razão, foi considerada muito adequada a escolha do canto de Moisés e Miriam (Ex 15, 1-21) como motivação para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018.

Subsídios (versão em português do Brasil):
                 Em texto corrido
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Ecumenismo: Um caminho sempre retomado

O início de um novo ano é sempre um tempo de esperança. É o tempo dos projectos, dos propósitos mais ou menos voluntariosos, das decisões que queremos honrar.
É neste início de ano que, há mais de um século, os cristãos das diversas tradições eclesiais – católicos, protestantes, ortodoxos, anglicanos… – são convidados a uma semana mais intensa de oração pela unidade. Como se, também aqui, fôssemos convidados a reacender a esperança, a procurar na oração comum, na escuta e partilha da palavra, nos gestos fraternos, a força para prosseguir a nossa missão comum de testemunharmos a novidade de Jesus, vivo e ressuscitado, como irmãos e irmãs, e de semearmos no nosso dia-a-dia a reconciliação e a confiança.
Este ano, a proposta internacional chega-nos dos cristãos das Caraíbas. Com eles, vem a memória dorida de um passado associado ao colonialismo, à escravatura, ao tratamento desumano do outro.
A novidade cristã foi aqui simultaneamente instrumento de opressão, trazida pelos colonizadores, e instrumento de libertação, quando encarnada na vida dos povos indígenas.
O canto de Moisés, erguido após a passagem do mar Vermelho, é relembrado como expressão dessa liberdade que Deus quer trazer à vida dos homens e mulheres em todos e cada um dos tempos.
A interpelação que aqui nos é lançada obriga-nos a não fazer do ecumenismo apenas algo de espiritual, íntimo, desencarnado da vida. A novidade cristã rompe a aparente vitória do mal e da morte, destrói tudo o que esmaga ou aprisiona cada ser humano. Ser de Cristo faz de cada um dos seus discípulos profetas, construtores de um mundo mais solidário e fraterno, denunciando e lutando contra todas as situações que diminuem ou esmagam a dignidade humana. E isto pode e deve fazer-se também em clave ecuménica.
Este pode ser também um desafio para este ano de 2018, em que comemoraremos vinte anos sobre o início do trabalho ecuménico com os jovens em Portugal e a celebração do primeiro Fórum Ecuménico Jovem. Desde Leiria, em 1999, até hoje, os Fóruns Ecuménicos, esses encontros nacionais de jovens oriundos de diferentes Igrejas, foram um desafio a descobrir a beleza e a urgência do caminho ecuménico. Percorrida a grande maioria das dioceses portuguesas, os fóruns foram-se prolongando em iniciativas mais locais, de oração, de reflexão, de compromisso social, de encontro. Se este é um tempo de dar graças a Deus pelo caminho percorrido, é também um tempo para recomeçar sempre de novo. Porque é preciso dizer, uma vez mais, que é muito mais o que nos une que o que nos separa. Que Cristo já nos reconciliou e chama-nos a ser instrumentos da sua reconciliação. Que é Ele quem quer que sejamos um, para que o mundo creia.

João Luís Fontes
Grupo Ecuménico Jovem
Além-mar n. 676 (Janeiro de 2018) 13

20/11/2017

Comunicado conjunto na conclusão da comemoração comum da Reforma

Hoje, 31 de outubro de 2017, último dia da Comemoração comum da Reforma, damos graças pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma; tratou-se de uma comemoração partilhada não só entre nós mas também com os nossos parceiros ecuménicos a nível mundial. Ao mesmo tempo, pedimos perdão pelas nossas culpas e pelo modo com que os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam reciprocamente nos quinhentos anos desde o início da Reforma até hoje.
Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecuménico que empreendemos juntos nos últimos cinquenta anos. Esta peregrinação, apoiada pela nossa oração comum, pelo culto divino e pelo diálogo ecuménico, levou à superação de preconceitos, à intensificação da compreensão recíproca e à obtenção de acordos teológicos decisivos. À luz de tão grandes bênçãos ao longo do nosso percurso, elevemos os nossos corações no louvor a Deus uno e trino pela graça recebida.
Hoje queremos recordar um ano marcado por eventos ecuménicos de importância incisiva,iniciado a 31 de outubro de 2016 com a oração conjunta luterano-católica celebrada em Lund, na Suécia, na presença dos nossos parceiros ecuménicos. O Papa Francisco e o Bispo Munib A. Younan, então Presidente da Federação Luterana Mundial, durante aquela função litúrgica por eles presidida, assinaram uma declaração comum, comprometendo-se a prosseguir juntos o caminho ecuménico rumo à unidade pela qual Cristo rezou (cf. João 17, 21). No mesmo dia, também o nosso serviço comum a favor de quantos necessitam da nossa ajuda e solidariedade foi fortalecido graças a uma carta de intenções assinada pela Caritas Internationalis e pela Lutheran World Federation World Service.
O Papa Francisco e o Presidente Yuonan declararam juntos: «Muitos membros das nossas comunidades aspiram receber a Eucaristia numa mesa única, como expressão concreta da plena unidade. Fazemos experiência da dor de quantos partilham toda a sua vida, mas não podem partilhar a presença redentora de Deus na mesa eucarística. Reconhecemos a nossa comum responsabilidade pastoral de responder à sede e à fome espirituais do nosso povo de ser um em Cristo. Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecuménicos, que queremos fazer progredir, inclusive renovando o nosso compromisso pelo diálogo teológico».
Entre as bênçãos recebidas durante o ano da Comemoração, há o facto que, pela primeira vez, luteranos e católicos viram a Reforma de uma perspetiva ecuménica. Isto tornou possível uma nova compreensão dos eventos do século XVI que provocaram a nossa separação. Reconhecemos que, se é verdade que não se pode mudar o passado, é verdade também que o seu impacto hodierno sobre nós pode ser transformado de modo que se torne um impulso para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para o mundo: a esperança de superar a divisão e a fragmentação. Mais uma vez, sobressaiu claramente que aquilo que nos une é muito superior ao que nos separa.
Sentimo-nos felizes por a Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, assinada solenemente pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja romano-católica em 1999, ter sido assinada também pelo Conselho Metodista Mundial em 2006 e, durante esse ano de Comemoração da Reforma, pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas. Hoje mesmo, a Declaração foi aceite e recebida pela Comunhão Anglicana durante uma cerimónia solene na Abadia de Westminster. Sobre esta base as nossas comunidades cristãs podem construir um vínculo cada vez mais estreito de consenso espiritual e de testemunho comum ao serviço do Evangelho.
Olhamos com satisfação para as numerosas iniciativas de oração comum e de culto divino que luteranos e católicos partilharam juntamente com os seus parceiros ecuménicos em várias partes do mundo, assim como para os encontros teológicos e as importantes publicações que deram substância a este ano de Comemoração.
Com o olhar dirigido para o futuro, comprometemo-nos a prosseguir o nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, rumo à crescente unidade desejada pelo nosso Senhor Jesus Cristo. Com a ajuda de Deus e num espírito de oração, pretendemos discernir a nossa interpretação de Igreja, Eucaristia e Ministério, esforçando-nos para chegar a um consenso substancial a fim de superar as diferenças que até agora são fonte de divisão entre nós. Com profunda alegria e gratidão, confiemos no facto de «que aquele que iniciou em vós esta obra excelente lhe dará o cumprimento até o dia de Jesus Cristo» (Filipenses 1, 6).

31 de outubro de 2017.

Federação Luterana Mundial
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos

21/09/2017

Uma primeira leitura da Mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação

Neste dia 21 de setembro de 2017, em que os cristãos do Grande Porto, se encontram na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, pelas 21.30 h., para um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, disponibilizamos em tradução portuguesa uma leitura da Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu para o Dia Mundial da Criação, ocorrido no passado dia 1 de setembro, que também faz o ponto da situação das iniciativas ecuménicas relacionadas com o cuidado e salvaguarda da criação.

A 31 de agosto foi publicada a Mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação, assinada pelo para Francisco e pelo patriarca ecuménico Bartolomeu: esta mensagem pode ser considerada uma «pedra vida» para o caminho ecuménico pelo seu conteúdo e pelo seu significado, como tantos sublinharam com comentários favoráveis à Mensagem e poucos ignoraram com leituras políticas e com algum silêncio sobre este ato ecuménico.
A Mensagem parte da ideia de que qualquer reflexão sobre a criação deve estar radicada numa leitura comum das Sagradas Escrituras, que representam uma fonte extraordinária para compreender cada vez melhor, dia após dia, quão precioso e único é o dom da terra; os cristãos estão chamados a ser responsáveis até ao fim, visto que «todas as coisas no céu e na terra serão recapituladas em Cristo», tanto mais que «a dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente conexas com o cuidado no que respeita a toda a criação». Encontra-se, portanto, na Palavra de Deus o fundamento do desejo partilhado por Roma e Constantinopla de condenar as agressões a que a criação continua a ser submetida; sobre estas agressões, de que a humanidade é responsável, detêm-se o papa Francisco e o patriarca Bartolomeu depois deste apelo para as Sagradas Escrituras, que pode ser acolhido por todos os cristãos.
Diante deste dom pelo qual estamos chamados a viver «a vocação a ser colaboradores de Deus», é impossível não observar o que o tempo presente mostra sobre o modo como esta vocação é ofuscada: as escolhas dos homens e mulheres do século XXI parecem não ter em conta a natureza, que deve ser sustentada e não explorada indiscriminadamente, manipulando e destruindo os recursos limitados do mundo: «Já não respeitamos a natureza como dom partilhado; consideramo-la antes como posse privada. Já não nos relacionamos com a natureza para a sustentar; pomos e dispomos mais dela para alimentar as nossas estruturas».
Oferecida esta leitura da relação distorcida com a criação, distante do desígnio de Deus, o papa Francisco e o patriarca Bartolomeu convidam a refletir sobre as consequências «trágicas e duradoiras», que provocam mudanças climáticas, atingindo sobretudo «as pessoas mais vulneráveis... quantos vivem pobremente em cada ponto do globo»: assim, «usar responsavelmente os bens da terra» significa ter em consideração a criação de todas as formas; os cristãos são, por isso, agora chamados a cuidar da criação, encontrando novos caminhos para favorecer «um desenvolvimento sustentável e integral», que não é um slogan político, mas é uma resposta afirmativa a quanto o Senhor pede.
Ao partilharem «a mesma preocupação pela criação de Deus, reconhecendo que a terra é um bem em comum», o papa e o patriarca ecuménico dirigem-se «a todas as pessoas de boa vontade» para que vivam o dia 1 de setembro como «um tempo de oração pelo ambiente», dando graças ao Senhor pelo dom da criação e refletindo, uma vez mais, no facto de que só com a oração se podem modificar as situações, ou seja «mudar o modo como percebemos o mundo com o objetivo de mudarmos o modo como nos relacionamos com o mundo». Na oração pela criação pode encontrar-se a força para desenvolver uma solidariedade cada vez mais forte, que tem um sabor ecuménico, a partir do momento em que chama os cristãos a partilharem denúncias, projetos e esperanças.
A Mensagem conclui-se com um apelo dirigido «a quantos ocupam uma posição de relevo no âmbito social, económico, político e cultural»; trata-se de um apelo «urgente» pelo qual que se pede que se formulem políticas que possam responder às necessidades de quem vive nas margens da sociedade e que se escutem as propostas de «tantos» que pedem mudanças para sarar «a criação ferida». As últimas palavras do papa e do patriarca indicam um percurso a realizar, a partir do momento em que não pode «haver uma solução genuína e duradoira para o desafio da crise ecológica e das alterações climáticas sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade partilhada e em condições de prestar contas de quanto realiza, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço».
Esta Mensagem assumiu um relevo muito particular não só pelo seu conteúdo, mas também pelas múltiplas implicações no caminho ecuménico. Antes de mais, a Mensagem reafirmou a profunda comunhão entre Roma e Constantinopla sobre um tema tão relevante como é a salvaguarda da criação para a presença da Igreja na sociedade contemporânea: isto aconteceu graças ao patriarca Bartolomeu, que soube, com uma série de iniciativas internacionais e com a publicação de textos, não só por ocasião do Dia da Criação, enriquecer a tradição oriental que, desde há séculos, se interroga sobre a relação entre o homem e a criação; o patriarca Bartolomeu conseguiu também com a sua constante chamada de atenção para o património comum do oriente cristão, na sua ação pela salvaguarda da criação, vencer resistências e perplexidades no mundo ortodoxo, onde cada Igreja, mais ou menos lentamente, começou a pensar a relação entre Igreja, religiões, sociedade e criação, criando ocasiões de comunhão real entre ortodoxos. O papa Francisco também contribuiu para tornar tornar o tema da salvaguarda da criação um dos eixos privilegiados da relação entre Roma e Constantinopla: o papa Francisco colocou-se numa tradição  antiga, minoritária, ligada frequentemente a lugares e figuras locais, matizada nas formas  presente na Igreja católica, relançando a ideia de que os católicos têm de estar na primeira linha da denúncia das agressões contra a criação, que determinam novas pobrezas, agravando as já existentes, e na formulação de propostas concretas para uma sociedade mais equitativa na distribuição dos bens e mais respeitosa pelo mundo na definição dos programas económicos. O papa Francisco publicou a encíclica Lodato Si', na qual, desde os primeiros «rumores» que acompanharam a sua redação, surgiu como central a dimensão ecuménica, reafirmada com a instituição, a poucas semanas da publicação da encíclica, de um Dia Mundial da Criação para o dia 1 de setembro, de modo a coincidir com o calendário da Igreja ortodoxa. O constante apelo à Lodato Si', tão presente nas intervenções do papa Francisco, como aconteceu ainda na última viagem à Colômbia, manteve bem viva esta atenção em ordem a um repensamento da relação com a criação, como sinal tangível de uma etapa da Igreja e do mundo.
A Mensagem também tem um significado particular para o diálogo ecuménico à luz de tantas iniciativas em que os cristãos se juntam pela salvaguarda da criação, em tantas partes do mundo, com iniciativas que vão mesmo para além dos confins da ecumene cristã, assumindo uma dimensão interreligiosa. Entre estas iniciativas  muitas das quais com um caminho de várias décadas, agora conhecido e partilhado  recorde-se o empenho do Conselho Ecuménico das Igrejas que vive a tensão ecuménica pela salvaguarda da criação, não só no Tempo da Criação (1 de setembro - 4 de outubro), mas também em diversos momentos do ano, como nas sete semanas da Quaresma, onde é central a reflexão sobre a água. Deste horizonte ecuménico, tão vivo e articulado, faz parte também a Giornata per la custodia del creato, instituída há doze anos pela Conferência Episcopal Italiana, para favorecer uma reflexão, guiada por uma mensagem anual, com um tema e uma passagem bíblica de referência, de modo a envolver toda a sociedade, a partir dos cristãos que ainda não se encontram em comunhão plena e visível com a Igreja católica. Esta Giornata, que inclui sempre uma celebração nacional num lugar sempre diferente  este ano realizou-se em Gubbio para refletir e para rezar sobre «O Senhor está realmente neste lugar e eu não sabia» (Gen 28, 16). Viajantes na terra de Deus  assumiu formas muito diversas nas várias dioceses: estas celebrações têm em comum o desejo de ultrapassar as fronteiras da Igreja católica, que, após as decisões tomadas na III Assembleia Ecuménica Europeia (Sibiu, 4-9 de setembro de 2007), decidiu permitir que esta Giornata se celebrasse no Tempo da Criação, que vai de 1 de setembro a 4 de outubro, o dia em que a Igreja católica faz memória de Francisco de Assis.
Da Mensagem do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu emerge, com renovada força para os cristãos do século XXI, a importância de recordar a todos, a começar pelos fiéis de Roma e de Constantinopla, que é fundamental para a missão do anúncio do evangelho e do seu testemunho no mundo fazem juntos, sempre, o que se pode e deve fazer, como rezar pela salvaguarda da criação, pedindo em alta voz que se ponha fim às agressões contra a natureza para construir uma sociedade mais justa, na qual o desenvolvimento económico esteja em harmonia com o desígnio de Deus para o mundo, de modo a derrotar a marginalização e a pobreza.

Riccardo Burigana

Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca ecuménico Bartolomeu no Dia Mundial de Oração pela Criação

Neste dia 21 de setembro de 2017, em que os cristãos do Grande Porto, se encontram na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, pelas 21.30 h., para um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, disponibilizamos para reflexão a Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu para o Dia Mundial da Criação, ocorrido no passado dia 1 de setembro.

A narração da criação oferece-nos uma visão panorâmica do mundo. A Sagrada Escritura revela que, «no princípio», Deus designou a humanidade como cooperadora na guarda e proteção do ambiente natural. Ao início, como lemos no Génesis (2, 5), «ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar». A terra foi-nos confiada como dom sublime e como herança, cuja responsabilidade todos compartilhamos até que, «no fim», todas as coisas no céu e na terra sejam restauradas em Cristo (cf. Ef 1, 10). A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente interligadas com a solicitude por toda a criação.
«No período intermédio», porém, a história do mundo apresenta uma situação muito diferente. Revela-nos um cenário moralmente decadente, onde as nossas atitudes e comportamentos para com a criação ofuscam a vocação de ser cooperadores de Deus. A nossa tendência a romper os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os limitados recursos do planeta, a avidez de retirar do mercado lucros ilimitados: tudo isto nos alienou do desígnio original da criação. Deixamos de respeitar a natureza como um dom compartilhado, considerando-a, ao invés, como posse privada. O nosso relacionamento com a natureza já não é para a sustentar, mas para a subjugar a fim de alimentar as nossas estruturas.
As consequências desta visão alternativa do mundo são trágicas e duradouras. O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.
Por isso, unidos pela mesma preocupação com a criação de Deus e reconhecendo que a terra é um bem dado em comum, convidamos ardorosamente todas as pessoas de boa vontade a dedicar, no dia 1 de setembro, um tempo de oração pelo ambiente. Nesta ocasião, desejamos elevar uma ação de graças ao benévolo Criador pelo magnífico dom da criação e comprometer-nos a cuidar dele e preservá-lo para o bem das gerações futuras. Sabemos que, no fim de contas, é em vão que nos afadigamos, se o Senhor não estiver ao nosso lado (cf. Sal 126/127), se a oração não estiver no centro das nossas reflexões e celebrações. Na verdade, um dos objetivos da nossa oração é mudar o modo como percebemos o mundo, para mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. O fim que nos propomos é ser audazes em abraçar, nos nossos estilos de vida, uma maior simplicidade e solidariedade.
A quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida. Estamos convencidos de que não poderá haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas, sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de prestar contas do seu agir, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço.

Do Vaticano e do Fanar, 1 de setembro de 2017.

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu