29/06/2016

Concluiu-se o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa

Encerrou-se no domingo 26 de junho o Concílio pan-ortodoxo realizado em Creta. Deixamos em tradução portuguesa o texto disponibilizado pela rubrica «Finestra ecumenica» do Mosteiro de Bose (Itália) sobre a conclusão e a mensagem final. Para um melhor conhecimento da preparação do concílio e das sombras que sobre ele pairaram nas semanas anteriores à sua realização, remetemos para dois textos da mesma rubrica que anteriormente traduzimos.

No domingo, 26 de junho de 2016, em Kolymbari (Creta), concluiu-se o Santo e Grande Concílio da Igreja ortodoxa com a solene celebração eucarística da festa de Todos os Santos. Como sublinhou o patriarca ecuménico Bartolomeu, que presidiu aos trabalhos do concílio, tratou-se de «um acontecimento de capital importância que nos anos e séculos que virão ocupará o seu lugar na história». O concílio – recordamo-lo – foi convocado por vontade da sinaxe dos chefes das igrejas autocéfalas reunidas em Chambésy em janeiro passado. Quatro igrejas (os Patriarcados de Antioquia, de Moscovo, da Bulgária e da Geórgia) renunciaram a participar nele. O patriarca de Moscovo Kirill, na carta enviada ao patriarca Bartolomeu e aos padres conciliares na véspera do concílio, dizia-se persuadido que tanto as igrejas que decidiram tomar parte nele, como as que consideraram que não era possível, «tomaram as suas decisões em consciência, e por isso as decisões de cada igreja devem ser consideradas com respeito».
O concílio, contudo, não só foi celebrado na data marcada, como se revelou um acontecimento de comunhão, em que, apesar das dificuldades, prevaleceu nitidamente a vontade de encontrar a unidade. 
Foi ainda o patriarca Bartolomeu, no discurso final, a reconhecê-lo com muita franqueza diante de todos «Houve dificuldades; nem tudo foram facilidades e rosas; houve asperezas, tensões, descontentamento, pessimismo sobre o resultado, mas no fim houve consenso, unidade de sentimentos, acordo, unanimidade. Todos juntos escrevemos a história!».
O concílio pôde assim discutir e aprovar por unanimidade, com uma real participação de todos os bispos presentes os documentos sobre seis temas em agenda e uma ampla encíclica que, por um lado, representa uma síntese do conteúdo dos documentos e, por outro, uma palavra evangélica de esperança dirigida ao mundo pelas situações críticas que a humanidade está a viver. Desta encíclica foi retirada uma mensagem mais breve, escrita numa linguagem mais acessível, dirigida ao povo ortodoxo e a todos os homens de boa vontade, que foi lida solenemente no domingo durante a liturgia eucarística conclusiva.
Nesta mensagem sublinha-se que «a prioridade do Santo e Grande Concílio foi proclamar a unidade da Igreja ortodoxa», que, de facto, não é, como se é tentado a pensar, uma confederação de igrejas autónomas, mas uma única Igreja. O concílio foi uma ocasião para redescobrir esta verdade, e quer ser «o primeiro passo» de um caminho conciliar que não pode e não deve terminar aqui: os padres decidiram, de facto, que concílios análogos serão convocados de agora em diante regularmente «a cada sete ou dez anos».
O concílio expressou, em seguida, a consciência de que «a Igreja não existe para si mesma», mas para o mundo: a evangelização até aos confins extremos da terra faz parte da sua razão de ser. Isto, contudo, tem de ser feito no respeito profundo pela dignidade de todos, e foi reiteradamente sublinhada a absoluta necessidade de diálogo, a vários níveis, mas sobretudo na tentativa de restabelecer a unidade entre os cristãos e de promover o conhecimento entre os crentes das várias religiões. Uma condenação nítida e sem equívoco foi reservada à explosão do fundamentalismo que é «a expressão de uma religiosidade mortífera». Para contrariar esta violência, a única solução é ainda o diálogo que «contribui de modo significativo para favorecer a confiança recíproca, a paz e a reconciliação».
Foi expressa preocupação pela situação dos cristãos e das minorias perseguidas no Médio Oriente, e fez-se um forte apelo à comunidade internacional pela proteção dos cristãos, assim como de todas as populações da região, que «têm um direito inviolável a ficarem nos seus países de origem», e para que se encontrem urgentemente soluções para os conflitos. Entretanto, deve prevalecer por parte de todos o acolhimento e a solidariedade para com quem procura refúgio e precisa de ajuda.
Foi dirigido um olhar positivo ao progresso das ciências e da tecnologia, mas juntamente com os numerosos benefícios que tal progresso oferece, sublinhou-se que também apresenta aspetos ambíguos e arriscados que requerem vigilância e uma palavra profética da parte da Igreja, que sempre «coloca o acento na dignidade do homem e no seu destino divino».
Sublinha-se particularmente que a atual crise ecológica é «evidentemente devida a causas espirituais e éticas. As suas raízes estão ligadas à cobiça, à avidez e ao egoísmo, que conduzem a um uso irracional dos recursos naturais, à poluição da atmosfera através de substâncias nocivas e ao aquecimento climático». A Igreja ortodoxa neste sentido faz-se porta-voz de um «ethos ascético» que propõe um novo paradigma humano mais respeitoso do criado e dos outros. Estes aspetos estão sublinhados em particular no documento dedicado ao jejum.
Em suma, o concílio da Igreja ortodoxa dirigiu um olhar amplo e cheio de misericórdia para o mundo, consciente de que ela já não pode ficar fechada sobre si mesma, mas tem de caminhar sempre ao lado dos homens e das mulheres de cada tempo. Tal responsabilidade deve ter certamente como termo último «a perspetiva da eternidade», mas não pode nunca esquecer o hic et nunc da história.
O Concílio, no fundo, foi um grande convite dirigido a toda a Igreja e a todos os homens para que realizem um êxodo daquela que o arcebispo Anastásios da Albânia no seu discurso inicial definiu como «a maior heresia, a mãe das heresias: o egocentrismo pessoal, coletivo, étnico, nacional e eclesial».
De modo significativo, a mensagem do concílio conclui-se afirmando que a «Igreja ortodoxa, guardando intacto o seu caráter místico e soteriológico, é sensível à dor, às angústias e ao grito pela justiça e a paz dos povos. Ela proclama “dia após dia a Sua salvação, anunciando entre as gentes a Sua glória, entre todos os povos as Suas maravilhas” (Sl 95)».
O santo sínodo do Patriarcado de Moscovo exprimirá a sua posição na sua próxima sessão ordinária de julho, enquanto o Patriarcado da Bulgária se exprimirá logo que tenha podido examinar os documentos traduzidos em búlgaro; o patriarca da Geórgia Elias enviou ao patriarca Bartolomeu uma carta de condolências pelas vítimas do ataque terrorista no aeroporto de Istambul, mas não há declarações da Igreja da Geórgia relativamente aos documentos do concílio. No dia seguinte ao encontro de Creta, o santo sínodo do Patriarcado de Antioquia decidiu não o considerar como um concílio, mas como uma reunião preliminar em vista do Concílio pan-ortodoxo com a participação de todas as igrejas autocéfalas, e os seus documentos são considerados não definitivos, mas abertos à discussão e a modificações.
A nosso ver, a convocação de um próximo concílio poderia ser um primeiro passo para uma estrutura conciliar permanente baseada em convocações sistemáticas. Nesta perspetiva, não faltarão provavelmente da parte da presidência (o patriarca de Constantinopla) sinais de profecia e gestos de uma fraternidade profundamente inspirada.
O papa Francisco, quando lhe foi perguntada a sua opinião a respeito do concílio durante o voo de regresso da viagem à Arménia, respondeu dizendo que é positiva, que se trata de uma etapa ao longo do caminho, as razões da ausência de algumas igrejas são sinceras, há coisas que se podem resolver e o simples facto de ter havido um encontro para se olharem nos olhos, rezarem juntos e falarem é muito positivo. «Estou grato ao Senhor. Haverá mais presenças no próximo encontro!».
Os irmãos e as irmãs de Bose partilham a alegria por este acontecimento de comunhão e continuam a rezar para que ele dê os seus frutos, na Igreja ortodoxa e em todo o mundo. Hoje mais do que nunca ressoam atuais as palavras do metropolita Nikodim, pronunciadas na primeira reunião preparatória pan-ortodoxa de Rodes em 1961: «Encontramo-nos diante de uma missão grande e difícil. Mas não temos medo e não estamos de modo nenhum assustados, porque a nossa tarefa é uma obra de Deus. Nós acreditamos que o Senhor consolidará e levará a cumprimento as nossas forças modestas. Conduzir-nos-á no caminho da verdade e ajudar-nos-á a alcançar o nosso objetivo para o bem e a glória da Igreja una, santa, católica e apostólica».
É para nós motivo de alegria e de ação de graças terminar esta nota referindo que o arcebispo Job de Telmessos, porta-voz do secretário do concílio, representante permanente do Patriarcado ecuménico junto do Conselho Ecuménico das Igrejas, amigo há anos da nossa comunidade, foi nomeado copresidente da comissão mista internacional para o diálogo teológico católico-ortodoxo, sucedendo ao metropolita Ioannis (Zizioulas) de Pergamo, também ele nosso querido amigo: a ambos a nossa gratidão, as felicitações fraternas e a oração fiel.