11/08/2017

Um ano depois do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa: Que receção?

Uma receção difícil

Em junho do ano passado, na solenidade de Pentecostes, encerrava solenemente em Creta o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa (Kolymbari, 20-26 de junho de 2016). Como notávamos então, «o modo como este concílio será considerado dependerá da receção que terá na consciência e na vida eclesial de toda a ortodoxia».
O metropolita Chrysostomos de Messénia reafirmou que «a receção é um processo contínuo da própria vida da Igreja... é uma questão que dificilmente pode ser superada ou transcurada, visto que constitui a expressão da capacidade do corpo eclesial tornar "suas" as decisões sinodais».
No caso do concílio de Creta, a receção tornou-se mais complexa, como se sabe, pelo facto de quatro das catorze Igrejas que formam a Igreja Ortodoxa (Patriarcado de Antioquia, Patriarcado de Moscovo, Igreja ortodoxa búlgara, Igreja ortodoxa da Geórgia) terem decidido não tomar parte. Nas declarações oficiais dos sínodos dessas Igrejas, a assembleia de Creta, mesmo se considerada «um acontecimento importante», não é reconhecida como «Santo e Grande Concílio» e às suas decisões não é atribuído valor vinculante. O Patriarcado de Moscovo e o da Geórgia confiaram o exame dos documentos conciliares (os seis documentos aprovados, juntamente com a Encíclica e a Mensagem) a comissões teológicas próprias, para avaliar se podem constituir a base de discussão para um próximo concílio.
Numa entrevista recente, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, à frente do departamento para as relações externas do Patriarcado de Moscovo, definiu o concílio de Creta «um concílio de dez Igrejas ortodoxas locais» e «um importante passo para um concílio pan-ortodoxo» e afirmou que «de momento continuamos a estudar as decisões do concílio de Creta, e os nossos teólogos estão a trabalhar. Brevemente deveremos dar o nosso parecer sobre estes documentos, mas consideramos que a nossa tarefa principal, depois do concílio como já tinha sido antes dele, é a de reforçar a unidade pan-ortodoxa e de nos abstermos de todos os passos que possam prejudicar esta unidade».
O concílio de Creta é assim concebido como o primeiro passado de um caminho conciliar que está ainda em curso e que tem de continuar com o concurso de todas as Igrejas ortodoxas.
Aliás, na sua Mensagem aos fiéis ortodoxos e a todas as pessoas de boa vontade, o concílio de Creta tinha «formulado a proposta de fazer do Santo e Grande Concílio uma instituição a convocar a cada 7 ou 10 anos». O Patriarcado da Roménia já se declarou disponível para receber um futuro concílio, «abrindo» também para a posição das Igrejas não presentes em Creta: «Os textos [dos documentos conciliares] podem ser explicados, em parte matizados ou desenvolvidos por um futuro Grande e Santo Concílio da Igreja Ortodoxa. Todavia, a sua interpretação e a redação dos novos textos sobre diversas questões não devem ser realizadas com precipitação e sem acordo pan-ortodoxo, mas devem ser retardados e revistos até que se encontro um pleno acordo». A Igreja da Roménia confirma assim o seu precioso papel mediador, fazendo entrever a possibilidade de uma «terceira solução», alternativa quer à receção dos documentos conciliares como vinculantes, quer à sua total recusa. Até agora a proposta não obteve respostas.
As Igrejas, como Patriarcado ecuménico, que insistem em defender a «autoridade pan-ortodoxa» das decisões tomadas no concílio apelam para o regulamento do próprio concílio, aprovado pelos primazes de todas as Igrejas ortodoxas em janeiro de 2016 (cf. Regulamento, art. 14, par. 2). Algumas Igrejas locais, como a Igreja da Grécia e a Igreja do Chipre, publicaram nos meses passados encíclicas e comunicados para informarem o conjunto do povo ortodoxo sobre os conteúdos do Santo e Grande Concílio realizado em Creta. O Santo Sínodo da Igreja da Grécia afirmou que «os textos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa constituem objeto de aprofundamento e de ulterior reflexão. Isto vale para todos os concílio da Igreja. O diálogo teológico não está interrompido. Pressuposto certamente necessário é que seja guardada intacta a verdade teológica e que este diálogo seja realizado sem fanatismos nem contraposições, sem conspirações nem divisões que firam a unidade da Igreja. As divisões (cismas) são graves doenças espirituais. Segundo as palavras de São João Crisóstomo, "dividir a Igreja, cultivar a discórdia e gerar dissensões e afastar-se continuamente do caminho comum (sínodo) é imperdoável e digno de condenação" (PG 48, 872). Por isso, exortam-se os fiéis e não darem peso às palavras daqueles que os impelem a afastarem-se da Igreja para constituírem um grupo separado do corpo eclesial, fazendo apelo a motivos fantasiosos de correção dogmática».
Muito importante foi também a aprovação das decisões conciliares por parte do Santo Sínodo do Patriarcado da Sérvia, considerando que no seu interior se tinham manifestado inicialmente oposições ao concílio ao ponto de ter sido colocada em dúvida a sua participação nele.

As oposições ao concílio

O comunicado da Igreja da Grécia alude a alguns grupos «zelotes» contrários desde o início à própria ideia do concílio e agora mais do que nunca intrépidos opositores das suas decisões (particularmente hostilizada a aceitação do termo «Igrejas» para as comunidades cristãs não ortodoxas).
Semelhantes oposições «tradicionalistas» emergiram também no interior das outras Igrejas ortodoxas, como por exemplo na Igreja da Roménia e do Chipre; estes grupos de oposição são transversais relativamente a cada Igreja autocéfala para procurarem apoio recíproco e empreenderem mais eficazmente a sua batalha comum.
Como notou o teólogo ortodoxo Paul Ladouceur «o neotradicionalismo na ortodoxia é caraterizado pela insistência numa estrita adesão à letra da tradição antiga que se reflete na teologia patrística, na liturgia e no direito canónico. Manifesta-se emblematicamente através de um sistemático e estridente anti-ocidentalismo, que evidencia os factores e«históricos, culturais, teológicos e sociopolíticos  que distinguem o cristianismo oriental do ocidental, muitas vezes transcurando ou desvalorizando oportunamente elementos que os unem» (Neo-Tradicionalism in Orthodoxy and the Great and Holy Council).
Estas oposições manifestaram-se no interior das Igreja da Grécia, com o apoio aberto, em alguns casos, dos bispos locais, chegando mesmo à grave decisão de rutura da comunhão eucarística, criando confusão e desconcerto no povo de Deus. O Patriarca Ecuménico, numa carta pessoal ao Arcebispo Hieronymos de Atenas (de 19 de novembro de 2016), exortou-o a tomar medidas adequadas no confronto com estes bispos, clérigos, monges e leigos que criam escândalo e divisão na Igreja, opondo-se às decisões do concílio.
A situação de tensão parece hoje estar recomposta. O próprio Patriarca Ecuménico Bartholomeos, na recente visita a Atenas, a 7 de junho de 2017, agradeceu ao Arcebispo Hieronymos pelo seu «apoio absoluto» durante o grande acontecimento do Santo e Grande Concílio.
Na mesma circunstância, o Patriarca falou da necessidade de que as decisões do concílio sejam dadas a conhecer mais adequadamente, sublinhando que «agora, todos juntos, temos de aplicar as decisões do concílio. Muitas faculdades teológicas e teólogos individualmente já as desenvolvem. Está, por isso, em preparação um grande congresso teológico inter-ortodoxo para Salónica, em abril de 2018, com o objetivo de que as decisões deste concílio sejam difundidas o mais amplamente possível, de modo a chegarem à posse dos fiéis ortodoxos».

O debate teológico

O acontecimento e os temas do concílio animam o debate teológico ortodoxo, como testemunham os numerosos congressos deste ano: o congresso organizado de 26 a 28 de abril de 2017 pela Faculdade teológica e pelo Centro de Estudos de direito canónico da Universidade de Babeș-Bolylai (Cluj-Napoca, Roménia), «O Santo e Grande Concílio: Acontecimento escatológico ou normalidade eclesial?»; o congresso organizado pela diocese grega de Katerini a 11 de maio, «O dia seguinte ao Santo e Grande Concílio: Perspetivas e esperanças»; o seminário desenvolvido em 16 de maio na Academia de Creta, «Aproximação teológica aos textos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoca», onde, na sua mensagem, o Patriarca Ecuménico sublinhou que «O Santo e Grande Concílio de Creta... representa, sem dúvida, o acontecimento mais importante da nossa Igreja Ortodoxa nos últimos anos, realizado para o reforço da sua unidade e do funcionamento da instituição conciliar no seu interior».
Como escreveu um teólogo da diáspora ortodoxa norte-americana, Athanasios Giocas, «em definitivo, o concílio de 2016, tanto nos seus sucessos como nos seus percebidos defeitos, reflete as forças e as debilidades do curso histórico da Igreja visível. Agora mais do que nunca é tempo para uma cauta reflexão, com o objetivo de aprender com a experiência do concílio, tanto com os seus aspetos positivos como com os negativos, em ordem a confirmar (ou repensar) o formato do próximo concílio». Um desejo semelhante foi formulado por um teólogo da Igreja de Antioquia, Assaad Elias Kattan, aliás crítico dos resultados do concílio: «O que espera as Igrejas ortodoxas depois do concílio de Creta é bastante mais importante do que o que o precedeu. Os ortodoxos encontram-se, portanto, ainda no início do caminho quando se trata das grandes questões e dos grandes desafios presentes no nosso mundo contemporâneo. Neste sentido o concílio de Creta era indispensável para que pudéssemos aprender. Esperando, claro, que aprendamos...».
O caminho do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa neste ano realizou os seus primeiros passos. O bispo Maxim (diocese ocidental dos Estados Unidos da América do Patriarcado da Sérvia), no seu Diário do Concílio, anota: «Para a opinião repetidamente formulada, segundo a qual este concílio não é nem Santo nem Grande por causa de algumas das suas deficiências, não há outra resposta a dar que esta: será o futuro a dar significado e substância ao passado. O período que se seguirá ao concílio mostrará se este concílio correspondeu e realizou o critério dos concílios ecuménicos» (Diary of the Council. Reflections fron the Holy and Great Council, Los Angeles - Creta 2016, pp. 41-42).
Estamos convencidos da verdade das palavras pronunciadas pelo Patriarca Bartholomeos no encerramento do concílio de Creta: «O significado e o peso deste concílio está, em primeiro lugar, no próprio facto de ter sido realizado, por graça de Deus, depois de tantos séculos durante os quais não tinha sido possível. Só isto bastaria para o tornar num dos grandes acontecimentos da história da Igreja».
De resto, como afirmou o Arcebispo Jovan de Ochrida, «os problemas citados... parecem pequenos diante da grandeza do acontecimento do concílio. E a partir do momento em que se encontrou a força para realizar este concílio, apesar dos muitos obstáculos, agora, depois do concílio, tudo parece mais promissor. O passo do nada ao mínimo é bastante maior do que o do mínimo ao muito».


04/07/2017

As Igrejas da Reforma



A concluir o ciclo realiza-se uma mesa-redonda com os representantes das Igrejas da Reforma:
- Bispo D. Jorge Pina Cabral (Igreja Lusitana - Comunhão Anglicana)
- Bispo Sifredo Teixeira (Igreja Evangélica Metodista Portuguesa)
- Diácono Peter Eisele (Igreja Evangélica Alemã do Porto)
4 de julho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.


26/06/2017

A Reforma em Portugal

António Manuel Silva
27 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.


20/06/2017

A Reforma e a literatura: De Constantino de la Fuente (+1559) a Valentim da Luz (+1562) - questões de dissidência e identidade na história do luteranismo hispânico



A Reforma e a literatura: De Constantino de la Fuente (+1559) a Valentim da Luz (+1562) -
- questões de dissidência e identidade na história do luteranismo hispânico
Pedro Vilas Boas Tavares
20 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

Após breve enquadramento histórico, a partir de dois casos melhor conhecidos em Espanha e Portugal, de alegados e surpreendentes "sequazes" de Lutero, problematizam-se formas de abordagem da historiográfica, nomeadamente da história e literatura da espiritualidade, suscetíveis de ajudarem a melhor fazer perceber os fenómenos de "qualificação" doutrinal-institucional coevos, pelas condições objetivas do sistema e da conjuntura repressivas, desde logo induzindo
estratégias confessionais (ofensivas e defensivas) de "amálgama" entre diferentes correntes de espiritualidade e de práticas nicodemíticas.

09/06/2017

A Reforma e a arte: A Reforma e a arquitetura eclesiástica do Norte de Portugal no século XVI



A Reforma e a arte: A Reforma e a arquitetura eclesiástica do Norte de Portugal no século XVI
José Ferrão Afonso
13 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

A Reforma está associada, na arquitectura eclesiástica do Norte de Portugal, ao desenvolvimento de novas apologias, espacialidades e conceitos ornamentais, processo que se inicia ainda antes do Concílio de Trento e terá pontos fulcrais nas Misericórdias, na arquitectura jesuíta e nas igrejas construídas por Frei Bartolomeu dos Mártires e Frei Agostinho de Jesus.

05/06/2017

A Reforma e a economia: As origens do capitalismo moderno

Nuno Ornelas
6 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

A Reforma tem sido associada à génese do capitalismo moderno. Podemos no entanto questionar até que ponto será correta esta leitura, sendo para tal necessário identificar primeiro quais os traços fundamentais do capitalismo moderno, para de seguida poder avaliar qual a relação entre a Reforma e  as caraterísticas fundamentais do capitalismo moderno.

01/06/2017

Fátima e o ecumenismo

Os acontecimentos de Fátima e o lugar de Fátima no catolicismo português são assuntos incómodos no contexto do diálogo ecuménico. Na último fascículo de O Novo Despertar (n. 174, Maio de 2017), publicação da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), saíram dois textos com reflexões de muito interesse que evidenciam tais perplexidades. Referimo-nos a Fátima e a questão ecuménica (pp.18-19), de D. Jorge Pina Cabral, bispo da referida Igreja, e A propósito do centenário das aparições de Fátima (pp. 20-21), de D. Fernando Soares, bispo emérito da mesma Igreja. O primeiro desses textos sobretudo refere as dificuldades que Fátima coloca às demais Igrejas que participam no diálogo ecuménico, assim como aponta caminhos para todas as Igrejas, no que ao lugar de Maria se refere.
Fez-nos lembrar este texto um pequeno artigo que José Eduardo Borges de Pinho, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e especialista em ecumenismo, publicou já há anos do jornal Voz Portucalense, sob o título Fátima - pesadelo para o ecumenismo?. Creio que no contexto do centenário dos acontecimentos de Fátima, vale a pena recuperar este texto, como também vale a pena ler e refletir sobre os textos oriundos da Igreja Lusitana que antes referimos. O ecumenismo constrói-se sobre o conhecimento mútuo do que nos aproxima e das dificuldades que subsistem. Sobre Maria e particularmente sobre Fátima há de facto dificuldades e «não existe ainda contexto eclesial ecuménico maduro», como refere D. Jorge Pina Cabral no seu texto.
É possível, contudo, ir dando espaço à questão. Nas últimas Jornadas de Teologia da Universidade Católica no Porto, que versaram sobre Maria, também se refletiu sobre Maria no desafio de uma espiritualidade ecuménica e no Congresso Internacional do Centenário de Fátima, que se realiza de 21 a 24 de junho próximos, José Eduardo Borges de Pinho regressará ao tema com uma comunicação precisamente sobre Fátima e a questão ecuménica, que aguardamos com muita expectativa.
Por agora, damos a conhecer os três textos referidos, ao mesmo tempo que remetemos para a leitura dos documentos do diálogo ecuménico sobre Maria, nomeadamente o texto do Grupo Ecuménico de Dombes Maria no projeto de Deus e a comunhão dos santos de 1997-98 (Gráfica de Coimbra, 1998) e o texto da Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana Maria: graça e esperança em Cristo de 2005.

Fátima - pesadelo para o ecumenismo?
Borges de Pinho

1. O título que me foi proposto para esta nota pode parecer excessivo, e assim o senti num primeiro momento. Todavia, logo me vieram à memória os depoimentos que, há não muitos anos, recolhi junto de diversos representantes de Igrejas e Comunidades Eclesiais existentes em Portugal, em ordem a uma comunicação num Congresso Mariológico Internacional. O teor das respostas não deixava qualquer dúvida: Fátima constitui mesmo um dos obstáculos maiores para o ecumenismo no nosso país.
2. Mas porquê é Fátima essa pedra de tropeço? As razões são várias e prendem-se tanto com convicções fundas do protestantismo em geral como com aspetos particulares relativos a Fátima. Enumero algumas delas:
- Antes de mais, a visão protestante sobre o viver crente em Igreja, enraizada num certo entendimento da justificação pela fé, tem dificuldades em admitir uma cooperação positiva de Maria na obra da salvação, vendo aí um ofuscamento ou mesmo um pôr em causa da centralidade de Cristo como único mediador entre Deus e os homens; 
- Nessa mesma ordem ideias, há pouca recetividade para uma comunhão dos santos que transcenda as circunstâncias do viver humano no tempo, pelo que só se invoca a Deus e rejeita-se qualquer invocação de Maria (e dos santos);
- Não se aceitam também os pressupostos católicos que estabelecem algum paralelismo tipológico entre Maria e o mistério da Igreja (Maria como tipo e modelo da Igreja);
- Já noutro plano, as expressões de religiosidade popular (promessas, sacrifícios e sua compreensão, etc.) que se associam a Fátima são vistas como desvio ao Evangelho;
- Além disso, por princípio, o protestantismo recusa atribuir qualquer significado a revelações particulares (contrárias, no seu entendimento, à exclusividade da Escritura);
- Finalmente, na ótica protestante, Fátima tem sido utilizada pela Igreja Católica duma forma que consideram inadequada (Fátima como símbolo do papel e do "poder" que a Igreja Católica tem em Portugal).
3. Como católicos creio que faríamos mal em ignorar, pura e simplesmente, estas ou outras observações críticas, como se não houvesse lugar aqui também para alguns questionamentos e purificações.
Desde logo porque, também para nós, o lugar de Maria no acontecimento cristão só é correta e devidamente compreendido e valorizado dentro da centralidade cristológica que estrutura a existência cristã.
Depois, porque o Concílio Vaticano II lembrou, precisamente no contexto do ecumenismo, que há uma "hierarquia das verdades" da fé a ter em conta, e esta estruturação da fé - tanto a nível doutrinal como existencial - nunca deve ser esquecida.
Além disso, não podemos ignorar que, se Fátima tem sido para milhões de pessoas lugar de encontro com Deus, também é verdade que, como realidade multifacetada que é, não esteve (está) imune a ambiguidades e nem sempre tem sido (é) encarada de modo adequado às exigências da maturidade da fé e à perceção do verdadeiro Deus.
Em síntese: também para nós se justifica sempre de novo a pergunta como e em que medida Fátima é e pode ser lugar acolhimento da mensagem evangélica. Por isso mesmo, Fátima tem de ser continuamente acompanhada pela reflexão teológico-pastoral e por uma consciência eclesial atenta e clarividente.
4. Sensíveis a esta saudável autocrítica, creio que podemos e devemos, então, colocar também algumas questões e fazer algumas propostas aos outros cristãos.
Pode-se lembrar, por exemplo, que um certo "esquecimento" de Maria, em que a tradição protestante caiu, não se justifica por razões de Evangelho, mas resulta sobretudo de unilateralismos de polémica confessional. Maria faz parte do Evangelho de Jesus e da história comunitária de fé no seu seguimento, a exemplaridade da fé de Maria é modelo permanente do nosso peregrinar crente.
Por outro lado, deve-se tornar inequivocamente claro (na teoria e na prática) que, também para nós, o papel desempenhado por Maria na obra da salvação não é algo independente de Cristo ou ao seu lado, antes só pode acontecer em subordinação a Ele e de um modo derivado d'Ele (Maria é expressão culminante da salvação pela graça). 
Também se deve explicitar melhor porquê e como a existência crente não é uma realidade de pendor "individualista", mas caminho em Igreja, numa solidariedade na fé que envolve autêntica comunhão dos santos.
Igualmente será de perguntar se não se deve partir duma conceção menos "racionalista" da fé, capaz de valorizar de forma mais justa os múltiplos caminhos da fé das pessoas e do seu (insondável aos nossos olhos) encontro com o Mistério de Deus. 
Sobretudo, será oportuno recordar que, dentro da referida "hierarquia das verdades", todo este campo da mariologia e da devoção mariana é certamente um lugar privilegiado para irmos experimentando caminhos de maior tolerância mútua, no respeito pela legítima diversidade (desde que uma diversidade não contrária ao Evangelho).
E, enfim, há um dado de facto que nos tem de interpelar a todos: não obstante possíveis (e reais) deformações, Fátima foi (e continuará a ser) para muita gente lugar de descoberta da mensagem do Evangelho.
5. Os caminhos do ecumenismo não são fáceis, e este ponto é particularmente delicado: não apenas por razões doutrinais, mas por todo o conjunto de emoções que, de um lado e de outro, suscita. Por isso mesmo, sobretudo em questões como esta, não basta o diálogo teológico-doutrinal (ainda que, como mostra o último documento do Grupo de Dombes, há já uma base sólida para um diálogo ecuménico sereno sobre Maria). Antes, é preciso todo um caminho global de aproximação entre pessoas e comunidades na valorização do que já têm comum e do que é verdadeiramente essencial na vivência e no testemunho cristãos. 
Nessa via, que não é certamente a do curto prazo, mas de persistente busca de fidelidade ao Evangelho, Maria pode deixar de ser vista e sentida como obstáculo, para se tornar estímulo e apoio à aproximação dos cristãos. É minha esperança que a redescoberta em comum de Maria - à luz do testemunho bíblico e sempre no respeito pela legítima diversidade de tradições, experiências de fé, piedades - venha a ser um impulso significativo, também com o contributo da rica tradição do Oriente, no caminho para a unidade dos cristãos.

Fátima e a questão ecuménica (pp. 18-19)
+ Jorge Pina Cabral
A propósito do centenário das aparições de Fátima (pp. 20-21)
+ Fernando Soares

25/05/2017

A Reforma e a cultura: A Reforma entre o fim da Idade Média e o individualismo moderno


A Reforma e a cultura: A Reforma entre o fim da Idade Média e o individualismo moderno
Arnaldo de Pinho
30 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

Trataremos da questão do impacte da “reforma” em sentido amplo antes da afirmação do protestantismo e da  contra reforma. Obviamente não deixaremos de fazer um enquadramento sobre o universo de ideias e inquietações que percorrem a Europa já no século XV. Mas abordaremos essencialmente a conjuntura ideológica e a crise religiosa do século XVI.


17/05/2017

A Reforma e as ideias: A conjuntura ideológica e a crise religiosa do século XVI


A Reforma e as ideias: A conjuntura ideológica e a crise religiosa do século XVI
José Esteves Pereira
23 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

1. As formas de vida e de pensamento no final da Idade Média:
presença da morte e sentimento de culpabilidade
2. Renascimento e humanismo: Erasmo e Lutero.
3. Livre arbítrio e arbítrio servo: Lutero humanista?
4. Protestantismo e mentalidade capitalista: Calvinismo e puritanismo

12/05/2017

A Reforma e a Política: O desenvolvimento político da Europa na sequência da Guerra dos anos 30


A Reforma e a Política:
O desenvolvimento político da Europa na sequência da Guerra dos anos 30
Helena Vilaça
16 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.


A Reforma protestante vai ser determinante dos desenvolvimentos políticos da Europa e respetiva geografia. A Guerra dos trinta anos é disso exemplo. A ênfase na salvação pela fé de acordo com a decisão de cada um constitui uma das raízes do individualismo contemporâneo com consequências para o constitucionalismo e a democracia liberais, hoje assente numa consciência que deixou de ter como fundamento a Bíblia e mais genericamente a religião. Nessa medida, a Reforma Protestante terá como efeito (perverso) a secularização da vida social.

Apresentação da conferência:



A conferência:

05/05/2017

A Reforma e a Teologia: Uma releitura de Lutero numa perspetiva ecuménica


A Reforma e a Teologia: Uma releitura de Lutero numa perspetiva ecuménica
José Eduardo Borges de Pinho
9 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

1.O pensamento teológico de Lutero - Pressupostos hermenêuticos e elementos inovadores
2. Releitura ecuménica da Reforma luterana no diálogo teológico católico-luterano
3.A Reforma luterana como interpelação, 50 anos depois do Concílio

30/04/2017

Martinho Lutero: o Reformador e a sua época

Francisco Ribeiro da Silva
2 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

Martinho Lutero foi um protagonista da História porque iniciou um movimento de reforma religiosa em 1517 que acabou por dividir e separar os cristãos. A separação permanece até aos dias de hoje, com outras dimensões para além da religiosa.
As comemorações dos 500 anos de separação entre Católicos e Protestantes não devem ser feitas senão em perspetiva ecuménica, interessada em buscar caminhos de reaproximação e de reconquista da unidade perdida.
Mas factos são factos. A Reforma luterana, para ser entendida, deve ser situada no seu tempo histórico. Ora o tempo histórico da Reforma, sob o ponto de vista mais geral da civilização europeia, foi um tempo de charneira, de passagem da Idade Media para os tempos Modernos e de início de uma certa globalização. Mudanças profundas causadas por acontecimentos estruturantes como a invenção da imprensa, a descoberta das Américas e do caminho marítimo para a Índia, o início da revolução científica, a queda do Império Bizantino e da conquista de Constantinopla pelos Turcos, o Humanismo e o Renascimento, o dealbar do capitalismo comercial.
Se Martinho Lutero foi o protagonista da Reforma, justifica-se que nos debrucemos sobre ele. Primeiro procuraremos conhecer o juízo que dele foi feito pelos historiadores protestantes e católicos ao longo destes quinhentos anos. Esse juízo vai da mitificação dos admiradores à quase maldição dos detratores. Mas, a partir do séc. XX foi possível um julgamento mais sereno, com base na documentação histórica. A conclusão hoje mais ou menos consensual é que Lutero foi um homem e um monge profundamente religioso e empenhado em encontrar o Deus verdadeiro e em promover a sua glória.
Depois, conheceremos algo mais das circunstâncias de Lutero e perceber por que é que a questão da salvação eterna foi para ele um problema existencial angustiante. Verificaremos que essa questão não foi motivo de ansiedade apenas para ele mas também para o era para as pessoas da sua época, no sentido colectivo mas também das pessoas individualmente consideradas. Estudaremos como é que ele chegou à descoberta do ponto fundamental da sua teologia que é a justificação pela fé, isto é, à certeza de que a salvação de cada um não é merecida pelas obras praticadas, mas é obtida apenas pela graça de Deus, através da fé. E como essa descoberta respondeu e correspondeu aos anseios de muitos.
Mas o sucesso da Reforma não está apenas no sossego espiritual que adveio da «descoberta» de Lutero mas também de outras circunstâncias históricas externas propícias que analisaremos. Como o desenvolvimento da Reforma teve o seu ponto de partida em 1517 e na publicitação das 95 teses sobre o poder e a eficácia das indulgências, daremos alguma atenção a este episódio e ao seu peso na Reforma. Esclareceremos finalmente que a súmula doutrinal de Lutero foi além da justificação pela fé e incluiu a afirmação do sacerdócio universal e a indicação da Bíblia como única fonte da revelação de Deus.

Declaração conjunta de Sua Santidade Francisco e de Sua Santidade Tewandros II (Igreja copta)

1. Nós, Francisco, Bispo de Roma e Papa da Igreja Católica, e Tawadros II, Papa de Alexandria e Patriarca da Sé de São Marcos, no Espírito Santo damos graças a Deus por nos ter concedido a feliz oportunidade de nos encontrarmos mais uma vez, trocarmos o abraço fraterno e juntarmo-nos novamente em oração comum. Damos glória ao Todo-Poderoso pelos laços de fraternidade e amizade existentes entre a Sé de São Pedro e a Sé de São Marcos. O privilégio de estar juntos aqui no Egito é um sinal de que a solidez do nosso relacionamento tem aumentado de ano para ano e de que estamos a crescer na proximidade, na fé e no amor de Cristo nosso Senhor. Damos graças a Deus pelo amado Egito, «terra natal que vive dentro de nós», como costumava dizer Sua Santidade Papa Shenouda III, «povo abençoado pelo Senhor» (cf. Is 19, 25) com a sua antiga civilização dos Faraós, a herança grega e romana, a tradição copta e a presença islâmica. O Egito é o lugar onde a Sagrada Família encontrou refúgio, é terra de mártires e santos.

2. O nosso vínculo profundo de amizade e fraternidade tem a sua origem na plena comunhão que existia entre as nossas Igrejas nos primeiros séculos tendo-se expressado de várias maneiras nos primeiros Concílios Ecuménicos, a começar pelo Concílio de Niceia em 325 e a contribuição de Santo Atanásio, corajoso Padre da Igreja que mereceu o título de «Protetor da Fé». A nossa comunhão manifestava-se através da oração e práticas litúrgicas semelhantes, da veneração dos mesmos mártires e santos, e no fomento e difusão do monaquismo, seguindo o exemplo do grande Santo Antão, conhecido como o pai de todos os monges.
Esta experiência comum de comunhão, anterior ao tempo de separação, assume um significado especial na nossa busca atual do restabelecimento da plena comunhão. A maior parte das relações que existiam nos primeiros séculos continuaram, apesar das divisões, entre a Igreja Católica e a Igreja Copta Ortodoxa até ao dia de hoje e recentemente foram mesmo revitalizadas. Estas desafiam-nos a intensificar os nossos esforços comuns, perseverando na busca duma unidade visível na diversidade, sob a guia do Espírito Santo.

3. Recordamos, com gratidão, o encontro histórico de há quarenta e quatro anos entre os nossos predecessores Papa Paulo VI e Papa Shenouda III, aquele abraço de paz e fraternidade depois de muitos séculos em que os nossos vínculos mútuos de amor não tiveram possibilidade de se expressar devido à distância que se criara entre nós. A Declaração Comum, que eles assinaram em 10 de maio de 1973, representou um marco no caminho ecuménico e serviu como ponto de partida para a instituição da Comissão de Diálogo Teológico entre as nossas duas Igrejas, que produziu muito fruto e abriu o caminho para um diálogo mais amplo entre a Igreja Católica e toda a família das Igrejas Ortodoxas Orientais. Naquela Declaração, as nossas Igrejas reconheceram que, no sulco da tradição apostólica, professam «uma só fé no Deus Uno e Trino» e «a divindade do Unigénito Filho de Deus (...) perfeito Deus, quanto à sua divindade, e perfeito homem quanto à sua humanidade». Reconheceu-se também que «a vida divina é-nos dada e alimentada em nós pelos sete sacramentos» e que «veneramos a Virgem Maria, Mãe da verdadeira Luz», a «Theotókos».

4. Com profunda gratidão, recordamos o encontro fraterno que nós próprios tivemos em Roma, a 10 de maio de 2013, e a instituição do dia 10 de maio como jornada anual em que aprofundamos a amizade e a fraternidade entre as nossas Igrejas. Este renovado espírito de proximidade permitiu-nos discernir ainda melhor como o vínculo que nos une foi recebido de nosso único Senhor no dia do Batismo. Com efeito, é através do Batismo que nos tornamos membros do único Corpo de Cristo que é a Igreja (cf. 1 Cor 12, 13). Esta herança comum é a base da peregrinação que juntos realizamos rumo à plena comunhão, crescendo no amor e na reconciliação.

5. Conscientes de que ainda há tanto caminho a fazer nesta peregrinação, recordamos o muito que já foi alcançado. Em particular, lembramos o encontro entre Papa Shenouda III e São João Paulo II, que veio como peregrino ao Egito durante o Grande Jubileu do ano 2000. Estamos determinados a seguir os seus passos, movidos pelo amor de Cristo Bom Pastor, na convicção profunda de que, caminhando juntos, crescemos em unidade. Para isso auferimos a força de Deus, fonte perfeita de comunhão e de amor.

6. Este amor encontra a sua expressão mais alta na oração comum. Quando os cristãos rezam juntos, chegam a compreender que aquilo que os une é muito maior do que aquilo que os divide. O nosso desejo ardente de unidade encontra inspiração na oração de Cristo «para que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Para isso aprofundemos as raízes que compartilhamos na única fé apostólica, rezando juntos e procurando traduções comuns do Pai Nosso e uma data comum para a celebração da Páscoa.

7. Enquanto caminhamos para o dia abençoado em que finalmente nos reuniremos à mesma Mesa Eucarística, podemos colaborar em muitas áreas e tornar tangível a grande riqueza que já temos em comum. Podemos testemunhar juntos certos valores fundamentais como a sacralidade e dignidade da vida humana, a sacralidade do matrimónio e da família, e o respeito por toda a criação, que Deus nos confiou. Não obstante a multiplicidade de desafios contemporâneos, como a secularização e a globalização da indiferença, somos chamados a oferecer uma resposta compartilhada baseada nos valores do Evangelho e nos tesouros das nossas respetivas tradições. Nesta linha, somos encorajados a aprofundar o estudo dos Padres Orientais e Latinos e promover um frutuoso intercâmbio na vida pastoral, especialmente na catequese e num mútuo enriquecimento espiritual entre comunidades monásticas e religiosas.

8. O testemunho cristão que compartilhamos é um sinal providencial de reconciliação e esperança para a sociedade egípcia e suas instituições, uma semente semeada para frutificar na justiça e na paz. Uma vez que acreditamos que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, esforcemo-nos por promover a tranquilidade e a concórdia através duma coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos, testemunhando assim que Deus deseja a unidade e a harmonia de toda a família humana e a igual dignidade de cada ser humano. Temos a peito a prosperidade e o futuro do Egito. Todos os membros da sociedade têm o direito e o dever de participar plenamente na vida do país, gozando de plena e igual cidadania e colaborando para construir a sua nação. A liberdade religiosa, que engloba a liberdade de consciência e está enraizada na dignidade da pessoa, é a pedra angular de todas as outras liberdades. É um direito sagrado e inalienável.

9. Intensifiquemos a nossa oração incessante por todos os cristãos no Egito e em todo o mundo, especialmente no Médio Oriente. Alguns acontecimentos trágicos e o sangue derramado pelos nossos fiéis, perseguidos e mortos unicamente pelo motivo de ser cristãos, recordam-nos ainda mais que o ecumenismo dos mártires nos une e encoraja no caminho da paz e da reconciliação. Pois, como escreve São Paulo, «se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26).

10. O mistério de Jesus, que morreu e ressuscitou por amor, situa-se no coração do nosso caminho para a plena unidade. Mais uma vez, os mártires são os nossos guias. Na Igreja primitiva, o sangue dos mártires foi semente de novos cristãos; assim também, em nossos dias, o sangue de tantos mártires seja semente de unidade entre todos os discípulos de Cristo, sinal e instrumento de comunhão e de paz para o mundo.

11. Obedientes à ação do Espírito Santo, que santifica a Igreja, a sustenta ao longo dos séculos e conduz àquela unidade plena pela qual Cristo rezou,

hoje nós, Papa Francisco e Papa Tawadros II, para alegrar o coração do Senhor Jesus bem como os corações dos nossos filhos e filhas na fé, declaramos mutuamente que, com uma só mente e coração, procuraremos sinceramente não repetir o Batismo administrado numa das nossas Igrejas a alguém que deseje juntar-se à outra. Isto confessamos em obediência às Sagradas Escrituras e à fé expressa nos três Concílios Ecuménicos reunidos em Niceia, Constantinopla e Éfeso.
Pedimos a Deus nosso Pai que nos guie, nos tempos e modos que o Espírito Santo dispuser, para a unidade plena no Corpo místico de Cristo.

12. Concluindo, deixemo-nos guiar pelos ensinamentos e o exemplo do apóstolo Paulo, que escreve: «[Esforçai-vos] por manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos» (Ef 4, 3-6).

Cairo, 28 de abril de 2017

14/04/2017

Esforços rumo a uma data comum para a Páscoa: uma situação sem esperança?

Este ano os cristãos têm uma ocasião excecional para manifestarem a sua unidade ao celebrarem a ressurreição de Jesus Cristo na mesma data. Mas isto não voltará acontecer até 2025, se as Igrejas continuarem a seguir cada uma o seu modo tradicional de calcularem a data da Páscoa.
Parece um paradoxo: todas as Igrejas concordam em celebrar a Páscoa no primeiro domingo após a primeira lua cheia do equinócio de março [1], mas há normalmente duas datas diferentes para esta celebração. A razão da contradição é que, após a introdução deste critério, as Igrejas do ocidente adotaram maioritariamente o calendário gregoriano, enquanto as ortodoxas mantiveram o calendário juliano para determinarem a data da lua cheia [2].
Este problema foi percebido como tal sobretudo no século XX. A questão investiu particularmente contra a Igreja ortodoxa, quando em 1923 o Parlamento grego introduziu o calendário gregoriano, dando início a um conflito entre a Igreja e o Estado [3]. Um congresso pan-ortodoxo de maio de 1923 decidiu, por isso, rever o calendário juliano adaptando-o a uma maior exatidão astronómica. Mas resultaram roturas na Igreja grega, na romena e em outras. Hoje, no mundo ortodoxo, a situação geral é que para a data da Páscoa todas as Igrejas usam o calendário juliano (com exceção da Igreja da Finlândia, que segue o gregoriano), enquanto para todas as outras festas, algumas Igrejas – em particular as de língua grega e a romena – usam o calendário gregoriano.
Com a crescente mobilidade das pessoas e a gradual interconexão entre nações e países, em razão do comércio e dos negócios que os novos meios de transporte e de comunicação tornaram possíveis, começou a advertir-se também no âmbito civil a exigência de uma regulamentação mais clara da data da Páscoa. A sua irregularidade e mobilidade anual criavam desvantagens sobretudo ao nível de compensações financeiras. Por isso, em 1923 a Sociedade das Nações avançou com a proposta de fixar, depois de acordo com as Igrejas, a Páscoa no domingo seguinte ao segundo sábado de abril. Assim a matéria foi objeto de discussão do incipiente movimento ecuménico, com o envolvimento da Comissão cristã universal Vida e Ação. Em resultado da consulta, a maior parte das Igrejas protestantes concordaram com um domingo fixo para a data da Páscoa e o Patriarcado ecuménico também se mostrou aberto a tal proposta (com a condição de que todas as Igrejas estivessem de acordo), mas Roma deu uma resposta negativa. Toda a iniciativa daquela que entretanto se tornou a ONU fracassou definitivamente em 1955 com a recusa do governo dos EUA em adotar um novo calendário.
Em 1964 a situação no interior das Igrejas mudou, na medida em que a Igreja católica, no decreto conciliar Orientalium ecclesiarum (§ 20) afirmou a sua disponibilidade para uma data comum, tanto fixa como móvel, desde que todas as Igrejas partilhassem a solução. Noutra consulta, encetada pelo Conselho ecuménico das Igrejas no seguimento desta mudança de atitude, a maioria das Igrejas ocidentais mostrou preferência por uma data fixa, enquanto para as Igrejas ortodoxas continuou a ser importante a observância da regra de Niceia.
Em 1977 a Igreja católica encetou uma iniciativa de entendimento com o Conselho ecuménico das Igrejas que conduziu a outro inquérito com um resultado idêntico ao precedente. Os ortodoxos afirmaram também claramente que uma decisão sobre semelhante questão só poderia ser tomada a nível pan-ortodoxo. Assim discutiram o assunto durante os trabalhos preparatórios do Concílio pan-ortodoxo. A segunda conferência pan-ortodoxa pré-conciliar propôs, por isso, em 1982 em Chambésy, uma mais precisa definição da data da Páscoa segundo a regra de Niceia. Mas exprimiu também o receio de que uma mudança de calendário provocasse novos cismas. Por isso, considerou-se que o momento não era apropriado para semelhante mudança.
Entre as Igrejas ortodoxas orientais havia maior abertura para a mudança: em 1971 a Igreja siro-ortodoxa propôs que se fixasse a data da Páscoa no domingo seguinte ao segundo sábado de abril e em 1984 declarou a sua própria disponibilidade para celebrar a Páscoa em qualquer domingo de abril, com a condição de que todas as Igrejas estivessem de acordo.
A questão regressou, em seguida, ao Conselho ecuménico das Igrejas. A iniciativa de maior importância foi uma consulta em 1997 em Aleppo, organizada pelo secretariado da Comissão Fé e Constituição a convite do metropolita siro-ortodoxo Gregorios Yohanna Ibrahim. A consulta propôs que se mantivesse a regra de Niceia, mas usando os dados astronómicos mais precisos (nem o calendário gregoriano nem o juliano e os seus respetivos ciclos pascais), tendo por base o meridiano geográfico de Jerusalém. A proposta foi enviada às Igrejas para que a examinassem. O resultado foi que as Igrejas do ocidente estiveram de acordo, enquanto as Igrejas ortodoxas acharam difícil aceitar a proposta, na medida em que os dados astronómicos precisos estabeleceriam um calendário demasiado próximo do gregoriano. A mudança seria, pois, tão substancial que não poderia ser aceite pelos fiéis.
Na sua IX Assembleia geral de 2006 em Porto Alegre (Brasil), o Conselho ecuménico das Igrejas reafirmou que uma data comum para a Páscoa seria parte do progresso rumo à unidade visível dos cristãos, mas não assumiu nenhuma iniciativa.
A questão só reemergiu recentemente, quando em 2014 Tawadros II, papa da Igreja copto-ortodoxa, pediu ao papa Francisco que realizasse um novo esforço para uma data unificada da Páscoa e discutiu o assunto também com o Patriarca ecuménico. Em maio de 2015, Tawadros deu mais um passo, propondo que se fixasse a Páscoa no terceiro domingo de abril. Um mês depois o papa Francisco expressou desejo de estabelecer uma data comum para a Páscoa e reafirmou a disponibilidade da Igreja católica no que respeita a uma data fixa. O papa ainda discutiu isto com o Patriarca siro-ortodoxo, que também pareceu pronto para tal solução. Mas uma declaração de um porta-voz do Patriarcado de Moscovo esclareceu logo que a Igreja ortodoxa russa não abandonaria a regra de Niceia e não aceitaria uma data fixa: convidava antes católicos e protestantes a adotarem o calendário juliano. Em janeiro de 2016, o arcebispo de Cantuária declarou que vislumbrava a possibilidade de um acordo sobre uma data fixa para a Páscoa no espaço «de cinco a dez anos».
Se se analisar o conjunto da discussão, a situação pode ser sintetizada em duas orientações: as Igrejas ocidentais e as ortodoxas orientais estão dispostas a uma data para a Páscoa fixada num determinado domingo de abril; as Igrejas ortodoxas têm intenção de manter a data móvel segundo as regras de Niceia. Isto levanta a questão de se será alguma vez possível encontrar uma data comum. Para avançar nestas reflexões, toda a questão precisa de ser vista mais em detalhe. Um ponto importante para os ortodoxos é um ulterior critério ligado às decisões do concílio de Niceia: a Páscoa não pode ser celebrada em concomitância com a judaica. Esta regra foi interpretada de vários modos e impede ulteriormente a abertura à mudança [4]. Mas o problema principal para os ortodoxos parece ser concretamente o receio de divisões no interior das Igrejas ortodoxas. E esta preocupação tem de ser levada a sério.
Concluindo, parece claro que deslocar a data da Páscoa para um dia fixo (um domingo de abril) seria uma mudança radical, porque pelo menos durante 1500 anos a Páscoa sempre foi celebrada num domingo móvel, tendo por base o equinócio e a lua cheia. Uma mudança semelhante romperia também com a tradição de indicar uma ligação com a Páscoa judaica, mantendo ao mesmo tempo uma clara distinção entre as duas. Uma data fixa num domingo específico de abril seria uma solução pragmática, em linha com a tendência atual de organizar a vida tendo por base as necessidades determinadas pela sociedade civil. Mas a discussão também tem mostrado que esta solução dificilmente poderá ser aceite por todas as Igrejas.
A meu ver, a única solução com possibilidades realistas de sucesso – mas que nunca foi tida em consideração a nível mundial – passaria por todas as Igrejas se unirem ao método ortodoxo de fixarem a data da Páscoa, usando o calendário juliano. Esta proposta não é nova: é praticada a nível local no Egito e na Jordânia, onde – seguindo uma indicação do Conselho das Igrejas do Médio Oriente de 1994 [5] – as Igrejas ocidentais decidiram seguir a maioria ortodoxa. Esta solução permite seguir a regra de Niceia que atualmente une todas as Igrejas cristãs e tem em consideração tanto a ligação entre a Páscoa e o ciclo da natureza como o seu significado simbólico vinculado à impressionante irrupção da ressurreição no habitual fluxo dos acontecimentos naturais. A desvantagem consistiria no facto de que o equinócio e a lua cheia astronómicos, e portanto reais, não seriam respeitados, mesmo se simbolicamente tidos em consideração. A partir do momento em que as Igrejas ocidentais estão dispostas inclusivamente a renunciarem à regra de Niceia, poderiam antes renunciar – por amor à unidade – à ideia de seguir a precisão astronómica.

Dagmar Heller, para a Finestra Ecumenica do Mosteiro de Bose
Teóloga luterana, docente de Teologia ecuménica no Instituto Ecuménico de Bossey (Suíça)




[1] Uma regra que a tradição interpreta como decisão do concílio de Niceia de 325, mesmo se daquele concílio não temos documentos oficiais a esse respeito.
[2] Maiores detalhes no meu artigo “The Date of Easter – A Church Dividing issue?”, in Ecumenical Review 48/1996, 392-400..
[3] Enquanto noutros países de maioria ortodoxa os cristãos estavam habituados a terem dois calendários – um para o âmbito secular e outro para a vida eclesial – na Grécia a população estava acostumada a que o calendário civil fosse idêntico ao eclesiástico.
[4] A dificuldade consiste em saber se este conceito deve ser entendido em relação à data da Páscoa no tempo de Jesus ou em relação à atual data de Pesach, determinada por modalidades ligeiramente diferentes relativamente aos tempos de Jesus.
[5] Memorandum “Uma data unificada para a Páscoa”, V Assembleia do MECC, 15-21 de novembro de 1994, Limassol, Chipre.

04/03/2017

Lutero, hagiografia e história

Este ano de 2017 é particularmente importante, para refletirmos sobre uma das figuras mais importantes da história do Cristianismo, Martinho Lutero, por passarem 500 anos do começo da Reforma. Como escreveu, um dia, o eminente teólogo católico Yves Congar, Reforma é, antes de tudo, Lutero. Foi ele quem abriu, em primeiro lugar, “a sólida crosta do mundo cristão do Ocidente”.
Houve, de facto, outros reformadores: Calvino, Zwinglio, entre outros. Mas nenhum como Lutero possuía, ao mesmo tempo, a cultura, a intuição, e a capacidade política para criar um movimento duma tal envergadura.
Durante mais de três séculos após a sua morte, Lutero, foi visto mais como santo, do que como homem do seu tempo, isto é, de modo mais hagiográfico que histórico. Assim aconteceu com Jonas, Coelius e Melanchton. Em 1566 Mathesius publica a História do venerável em Deus, do santo e caro homem de Deus, o Doutor Martinho Lutero. O pietismo dos séculos XVII e XVIII interessou-se mais pela espiritualidade de Lutero que por sua teologia. Mas actuando desta forma, acaba por canonizá-lo. Para as massas protestantes, Lutero mantém-se, como escreve Lucien Febvre como “um semideus, de rosto rosado, cabelos ondeados, atitude paternal e linguagem benigna”.
Frederico II da Prússia concedia-lhe o mérito de ter estabelecido uma religião submissa ao Estado e Herder e Fichte consideravam-no o campeão do nacionalismo alemão. Por sua vez, Lessing, Hegel, Novalis, e em França Michelet, consideravam a Reforma como a vitória da liberdade de consciência.
A história começa tarde a fazer o seu caminho.
Foi sobretudo a partir da investigação do dominicano Denifle, um austríaco, arquivista no Vaticano, que os trabalhos históricos começaram a sério, já estávamos nos começos do séc. XX. Denifle enquadra Lutero no clima de decadência da Igreja, nos fins da Idade Média, embora trace de Lutero um quadro, pouco próximo da santidade.
O jesuíta Grisar abordou a história de Lutero em termos mais comedidos, mas não lhe concede a categoria dum teólogo digno desse nome. Só em 1917, Kieff na revista católica Hochland, afirmava que Lutero conseguiu êxito porque a sua mensagem possuía um conteúdo moral e religioso convincente.
Mais tarde, deve-se sobretudo ao historiador católico J. Lortz, a partir de 1939, o trabalho e a metodologia de trabalho decisiva para a abordagem de Lutero. O grande autor de A Reforma na Alemanha, reconhece “que não se pode duvidar de que, no claustro, Lutero lutou pela salvação da sua alma com uma austeridade inflexível”. E ainda: “Lutero foi um personagem eminentemente religioso. Os anos decisivos da sua evolução e da sua irrupção na cena histórica são extraordinariamente ricos em vida religiosa, quaisquer que tenham sido os seus erros dogmáticos”.
Também em França, um dos apóstolos do Ecumenismo, Yves Congar, escrevia em 1950, em sua obra Verdadeira em falsa reforma da Igreja sobre a grandeza espiritual de Lutero: Para compreender Lutero a melhor perspectiva é a da história, não a confessional ou a psicológica.
Durante muito tempo explicou-se a Reforma pelos “abusos da Igreja”. Pese embora a verdade deste fundamento bem conhecido, não deixa também de ser verdade que pelos finais do séc. XV e XVI, se estava a produzir na Igreja, em vários sectores, um grande movimento reformador.
Segundo um dos melhores historiadores do Concílio de Trento, Jedin, a vida religiosa na Alemanha na época, conhecia um surto de renovação superior a outros países e, por isso, a necessidade da Reforma, deixava-se sentir, não pela decadência, mas por uma maior exigência dessa mesma vida religiosa.
Neste contexto poderia ser possível alguma reconciliação entre Lutero e os movimentos renovadores do seu tempo, ou mesmo o diálogo com personalidades como Erasmo. Todavia a linguagem extremamente violenta de Lutero contra Erasmo, o Papa e reformadores como Zwiwnglio, os radicais evangélicos como Thomas Muntzer, diatribes contra os judeus, que se acentuaram à medida que o tempo ia passando, tornavam impossível o campo do entendimento.
Contra os camponeses escreve, por exemplo: “estrangulem-se! Ao cão louco que se lança contra ti, há que matá-lo; se não, matar-te-á a ti.” E num panfleto de 1543, Contra os judeus e suas mentiras, Lutero convida à destruição das sinagogas.
Hitler, de resto, recordará este apelo e fará publicar milhões de exemplares destes libelos de Lutero.
Mas mesmo isto há que compreendê-lo na época. A violência verbal e física era então mais frequente do que hoje. Por outro lado, o Papado, que durante muito tempo protegeu os judeus, também caiu no anti-semitismo, com Paulo VI (1555-1559) e Pio V (1566-1572), ambos criadores de ghettos nos Estados Pontifícios.
Filipe Melanchton que tanto ajudou Lutero e o moderou em temas teológicos, confessou dois anos depois da morte do Reformador: “Sofri uma escravidão verdadeiramente odiosa, porque Lutero abandonava-se à sua natureza, onde aparecia uma tendência excessivamente batalhadora com mais frequência do que ter em conta a sua dignidade e a utilidade comum”.
Da hagiografia à história, vai uma grande diferença. 
Hoje devido aos trabalhos históricos sérios estamos na altura de conhecer melhor Lutero e o seu tempo.

Arnaldo de Pinho
Voz Portucalense (1 de março de 2017) 8

14/02/2017

Uma comunhão multidimensional

Realizou-se de 22 a 27 de janeiro em Roma a última reunião da Comissão mista internacional para o diálogo teológico entre a Igreja católica e as Igrejas ortodoxas orientais sobre a eucaristia. Disponibilizamos em tradução portuguesa o texto que a Finestra ecumenica do Mosteiro de Bose em Itália, publicou com o título Una comunione multidimensionale, a propósito desta reunião e fazendo uma síntese do diálogo que a Comissão vem desenvolvendo desde 2004.

A Comissão mista internacional para o diálogo teológico entre a Igreja católica e as Igrejas ortodoxas orientais teve a sua 14ª reunião plenária em Roma de 22 a 27 de janeiro de 2017. Este diálogo abriu-se oficialmente em 2004 e diz respeito às Igrejas que não reconheceram o concílio de Calcedónia de 451 e que, no passado, eram chamadas impropriamente "Igrejas monofisitas", a saber: a Igreja arménia apostólica, a Igreja siríaca ortodoxa, a Igreja  copta ortodoxa, a Igreja etíope ortodoxa e a Igreja siro-malancar ortodoxa. A Igreja eritreia ortodoxa está impossibilidade de participar no diálogo por causa da situação interna daquele país.
Este diálogo oficial foi precedido por diálogos não oficiais, pela assinatura de acordos cristológicos por parte do papa de Roma e dos chefes daquelas Igrejas e pelos diálogos bilaterais com a Igreja copta e a Igreja malancar ortodoxa.
Este diálogo revelou-se bem depressa digno de confiança e muito fraterno. Os membros da comissão aprenderam a conhecerem-se e a estimarem-se e gostam de se encontrarem e de se confrontarem sobre as orientações teológicas e a vida concreta das suas Igrejas. Até agora foram publicados dois documentos comuns: «Natureza, constituição e missão da Igreja» (2009) [inglês, francês, italiano] e «Exercício da comunhão na vida da Igreja antiga e suas implicações para a nossa procura da comunhão hoje» (2015).
O primeiro documento foi uma bela surpresa do Espírito. Depois de um início mais tímido, os membros da Comissão constataram, menos de cinco anos mais tarde, que as suas Igrejas têm em comum uma visão fundamental da Igreja baseada na eclesiologia de comunhão, se bem que notando algumas questões que requerem um estudo suplementar, como o número dos concílios ecuménicos e a questão de um ministério de comunhão a nível universal.
O segundo documento começa a explorar exatamente este último problema. Versa sobre os primeiros cinco séculos, o tempo em que católicos e ortodoxos orientais viviam em comunhão, tempo que é considerado uma fonte privilegiada de inspiração para a procura da unidade hoje. O texto releva como todas as Igrejas tiveram sempre a preocupação de viverem em comunhão umas com as outras e alimentaram de vários modos esta comunhão: não só com relações oficiais (sínodos, cartas ou visitas), mas também através de muitos outros aspetos da vida eclesial, como a oração, a liturgia, o martírio, o monaquismo, a veneração dos santos e as peregrinações.
Constata-se que «esta comunhão é multidimensional e não pode ser reduzida apenas à comunhão oficial, hierárquica». Chega a uma conclusão importante: «Os membros da Comissão estão em condições de observar com satisfação que, para uma grande parte, a comunicação que existia entre as suas Igrejas nos primeiros séculos foi reavivada nestes últimos anos». Os seus estudos sucessivos inserir-se-ão nesta perspetiva: «Perguntar-se-nos-á em que medida o restabelecimentos das relações que existiam nos primeiros séculos é suficiente para restabelecer hoje a plena comunhão sacramental».
É neste espírito que a Comissão empreendeu o estudo dos sacramentos: o batismo e a confirmação na reunião de 2016 no Cairo, a eucaristia na sessão de Roma deste ano. Permanecem algumas questões em aberto em ordem ao reconhecimento recíproco do batismo, mas existe um acordo pleno sobre a eucaristia, respeitando as diversidades nas orações eucarísticas e na prática da celebração. O relatório constata concretamente que «todos os elementos da anáfora são necessários para a consagração eucarística», negando cada oposição entre as palavras da instituição e a epiclese, e que «o uso habitual do pão levedado ou não levedado não constitui desacordo fundamental em matéria de doutrina». Estão assim superadas duas polémicas históricas sem terem sido objeto de um debate específico. Claro sinal de um entendimento cada vez mais profundo.
Na próxima reunião que se realizará em Etchmiadzin, na Arménia, em janeiro de 2018, a Comissão estudará os sacramentos da penitência, da ordem e da unção dos enfermos, para alargar ulteriormente a base de entendimento e de reaproximação.

P. Frans Bouwen, M.Afr.
de Jerusalém para a Finestra ecumenica (Mosteiro de Bose)


25/01/2017

Reconciliados com Deus (2 Coríntios 5,20)

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
Reflexão para o oitavo dia



Miqueias 4,1-5: Nos últimos dias a justiça reinará
Salmo 87: Contam-se coisas gloriosas sobre Deus
Apocalipse 21,1-5a: Deus fará um novo céu e uma nova terra
João 20,11-18: O encontro com Cristo ressuscitado leva a uma missão pessoal

Comentário
E se as profecias na Bíblia de facto se tornarem realidade? E se as guerras entre os povos pararem e se dos armamentos de guerra foram feitas coisas capazes de darem vida? E se a justiça e a paz reinarem, uma paz que seja mais do que simplesmente a ausência de guerra? E se toda a humanidade se unir para uma celebração na qual nem mesmo uma única pessoa seja marginalizada? E se de facto não houver mais luto, nem lágrimas, nem morte? Seria a o culminar da reconciliação trazida por Deus em Jesus Cristo. Seria o céu!
Salmos, cânticos e hinos fazem-nos cantar acerca do dia em que a criação na sua perfeição atingirá finalmente o seu objetivo, o dia em que Deus vai ser “tudo em todos”. Eles falam-nos sobre a esperança cristã do cumprimento do Reino de Deus, quando o sofrimento for transformado em alegria. Nesse dia, a Igreja revelar-se-á na sua beleza e graça como corpo único de Cristo. Sempre que nos unimos no Espírito para cantarmos juntos acerca do cumprimento das promessas de Deus, os céus abrem-se e começamos aqui e agora a dançar a melodia da eternidade.
Como já podemos experimentar essa presença celestial, celebremos juntos. Podemos ficar inspirados a partilhar imagens, poemas e canções das nossas tradições particulares. Esses materiais podem abrir para nós espaços para vivermos a experiência da nossa fé comum na esperança do Reino de Deus.

Questões

- Como é que visualiza o céu?
- Que canções, histórias, poemas e figuras da sua tradição o fazem sentir que está a participar da realidade da eternidade de Deus?

Oração

Deus Uno e Trino, Pai, Filho e Espírito Santo,
nós te agradecemos por esta Semana de Oração,
por estarmos juntos como cristãos
e pelas diferentes maneiras
como experimentamos a tua presença,
Queremos sempre saber louvar juntos o teu nome santo
para continuarmos a crescer
em unidade e reconciliação. Amém.

As riquezas de Cristo e as obras de virtude na vida de outros

Para motivar a reflexão e a oração, acolhendo uma sugestão de "Misa Dominical" (2017/2), propomos para cada dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos uma breve fragmento de escritos de alguns autores não católicos e para o primeiro e último dia oferecemos dois textos do decreto do II Concílio do Vaticano sobre o ecumenismo.

Oitavo dia

«É necessário que os católicos reconheçam com alegria e estimem os bens verdadeiramente cristãos, oriundos de um património comum, que se encontram nos nossos irmãos separados. É digno e salutar reconhecer as riquezas de Cristo e as obras de virtude na vida de outros que dão testemunho de Cristo, às vezes até à efusão do sangue. Deus é, com efeito, sempre admirável e digno de admiração nas suas obras.
Nem se passe por alto o facto de que tudo o que a graça do Espírito Santo realiza nos irmãos separados pode também contribuir para a nossa edificação. Tudo o que é verdadeiramente cristão jamais se opõe aos bens genuínos da fé, antes sempre pode fazer com que mais perfeitamente se compreenda o próprio mistério de Cristo e da Igreja».

II Concílio do Vaticano, Unitatis Redintegratio, 4.

24/01/2017

O ministério da reconciliação (2 Coríntios 5,18-19)

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
Reflexão para o sétimo dia


Génesis 50,15-21: José reconcilia-se com os seus irmãos
Salmo 72: O Reino de Deus traz o direito e a paz
1 João 3,16b-21: O amor de Deus nos impele a amarmo-nos uns aos outros
João 17,20-26: Jesus ora pela unidade da sua Igreja

Comentário
 
A reconciliação entre Deus e a humanidade é realidade central na nossa fé cristã. Paulo estava convencido de que o amor de Cristo nos impele a levar a reconciliação de Deus a funcionar em todos os aspetos de nossa vida. Hoje isso leva-nos a examinar as nossas consciências em relação às nossas divisões. Como demonstra a história de José, Deus dá sempre a graça necessária para a cura de relacionamentos rompidos.
Os grandes reformadores, como Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio e João Calvino, bem como muitos que permaneceram católicos, como Inácio de Loyola, Francisco de Sales e Carlos Borromeu, procuraram trazer renovação para a Igreja ocidental. No entanto, o que poderia ter sido uma história da graça de Deus foi também marcada pelo pecado humano e tornou-se uma história da derrota da unidade do povo de Deus. Afetadas pelo pecado e a guerra, a hostilidade e a suspeita mútuas aprofundaram-se ao longo dos séculos.
O ministério da reconciliação inclui o trabalho para superar as divisões dentro do cristianismo. Hoje, muitas Igrejas cristãs trabalham juntas com mútua confiança e respeito. Um exemplo positivo de reconciliação ecuménica é o diálogo entre a Federação Luterana Mundial e a Conferência Mundial Menonita. Depois dos resultados do diálogo terem sido publicados no documento “Memórias em cura: Reconciliação em Cristo”, as duas organizações promoveram um culto penitencial em 2010, seguido de outros cultos de reconciliação na Alemanha e em muitos outros países.

Questões
- Onde vemos a necessidade de um ministério da reconciliação no nosso contexto?
- Como estamos a responder a essa necessidade?

Oração
 
Deus de toda a bondade,
nós te agradecemos por reconciliares
o mundo inteiro contigo em Cristo.
Reforça os ministérios da reconciliação em todos nós,
nas nossas comunidades e nas nossas Igrejas.
Cura nossos corações e ajuda-nos a espalhar tua paz.
“Onde houver ódio, deixa-nos semear o amor;
onde houver injúria, o perdão;
onde houver dúvida, a fé;
onde houver desespero, a esperança;
onde houver escuridão, a luz;
onde houver tristeza, a alegria”.
Assim te pedimos em nome de Cristo Jesus,
pelo poder do Espírito Santo. Amém.

Cristo revela-se-nos não só no passado, mas também no presente

Para motivar a reflexão e a oração, acolhendo uma sugestão de "Misa Dominical" (2017/2), propomos para cada dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos uma breve fragmento de escritos de alguns autores não católicos e para o primeiro e último dia oferecemos dois textos do decreto do II Concílio do Vaticano sobre o ecumenismo.

Sétimo dia

«Deus só se nos manifesta como uma realidade viva através de Cristo humano e divino; mas Cristo não pode representar uma realidade para nós, se não conservarmos mais do que uma recordação histórica: deve revelar-se-nos não só no passado, mas também no presente; e esta revelação no presente deve ser independente das nossas limitações pessoais. Aqueles que creem possuir pessoal e diretamente as revelações absolutas e definitivas de Cristo, é evidente que não se encontram preparados para desfrutar delas, e tomam por Cristo os fantasmas da própria imaginação. Não devemos buscar a plenitude de Cristo na nossa esfera pessoal, mas na sua própria esfera universal, na Igreja».

Vladimir Soloviov
Ortodoxo russo do século XIX