21/09/2017

Uma primeira leitura da Mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação

Neste dia 21 de setembro de 2017, em que os cristãos do Grande Porto, se encontram na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, pelas 21.30 h., para um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, disponibilizamos em tradução portuguesa uma leitura da Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu para o Dia Mundial da Criação, ocorrido no passado dia 1 de setembro, que também faz o ponto da situação das iniciativas ecuménicas relacionadas com o cuidado e salvaguarda da criação.

A 31 de agosto foi publicada a Mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação, assinada pelo para Francisco e pelo patriarca ecuménico Bartolomeu: esta mensagem pode ser considerada uma «pedra vida» para o caminho ecuménico pelo seu conteúdo e pelo seu significado, como tantos sublinharam com comentários favoráveis à Mensagem e poucos ignoraram com leituras políticas e com algum silêncio sobre este ato ecuménico.
A Mensagem parte da ideia de que qualquer reflexão sobre a criação deve estar radicada numa leitura comum das Sagradas Escrituras, que representam uma fonte extraordinária para compreender cada vez melhor, dia após dia, quão precioso e único é o dom da terra; os cristãos estão chamados a ser responsáveis até ao fim, visto que «todas as coisas no céu e na terra serão recapituladas em Cristo», tanto mais que «a dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente conexas com o cuidado no que respeita a toda a criação». Encontra-se, portanto, na Palavra de Deus o fundamento do desejo partilhado por Roma e Constantinopla de condenar as agressões a que a criação continua a ser submetida; sobre estas agressões, de que a humanidade é responsável, detêm-se o papa Francisco e o patriarca Bartolomeu depois deste apelo para as Sagradas Escrituras, que pode ser acolhido por todos os cristãos.
Diante deste dom pelo qual estamos chamados a viver «a vocação a ser colaboradores de Deus», é impossível não observar o que o tempo presente mostra sobre o modo como esta vocação é ofuscada: as escolhas dos homens e mulheres do século XXI parecem não ter em conta a natureza, que deve ser sustentada e não explorada indiscriminadamente, manipulando e destruindo os recursos limitados do mundo: «Já não respeitamos a natureza como dom partilhado; consideramo-la antes como posse privada. Já não nos relacionamos com a natureza para a sustentar; pomos e dispomos mais dela para alimentar as nossas estruturas».
Oferecida esta leitura da relação distorcida com a criação, distante do desígnio de Deus, o papa Francisco e o patriarca Bartolomeu convidam a refletir sobre as consequências «trágicas e duradoiras», que provocam mudanças climáticas, atingindo sobretudo «as pessoas mais vulneráveis... quantos vivem pobremente em cada ponto do globo»: assim, «usar responsavelmente os bens da terra» significa ter em consideração a criação de todas as formas; os cristãos são, por isso, agora chamados a cuidar da criação, encontrando novos caminhos para favorecer «um desenvolvimento sustentável e integral», que não é um slogan político, mas é uma resposta afirmativa a quanto o Senhor pede.
Ao partilharem «a mesma preocupação pela criação de Deus, reconhecendo que a terra é um bem em comum», o papa e o patriarca ecuménico dirigem-se «a todas as pessoas de boa vontade» para que vivam o dia 1 de setembro como «um tempo de oração pelo ambiente», dando graças ao Senhor pelo dom da criação e refletindo, uma vez mais, no facto de que só com a oração se podem modificar as situações, ou seja «mudar o modo como percebemos o mundo com o objetivo de mudarmos o modo como nos relacionamos com o mundo». Na oração pela criação pode encontrar-se a força para desenvolver uma solidariedade cada vez mais forte, que tem um sabor ecuménico, a partir do momento em que chama os cristãos a partilharem denúncias, projetos e esperanças.
A Mensagem conclui-se com um apelo dirigido «a quantos ocupam uma posição de relevo no âmbito social, económico, político e cultural»; trata-se de um apelo «urgente» pelo qual que se pede que se formulem políticas que possam responder às necessidades de quem vive nas margens da sociedade e que se escutem as propostas de «tantos» que pedem mudanças para sarar «a criação ferida». As últimas palavras do papa e do patriarca indicam um percurso a realizar, a partir do momento em que não pode «haver uma solução genuína e duradoira para o desafio da crise ecológica e das alterações climáticas sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade partilhada e em condições de prestar contas de quanto realiza, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço».
Esta Mensagem assumiu um relevo muito particular não só pelo seu conteúdo, mas também pelas múltiplas implicações no caminho ecuménico. Antes de mais, a Mensagem reafirmou a profunda comunhão entre Roma e Constantinopla sobre um tema tão relevante como é a salvaguarda da criação para a presença da Igreja na sociedade contemporânea: isto aconteceu graças ao patriarca Bartolomeu, que soube, com uma série de iniciativas internacionais e com a publicação de textos, não só por ocasião do Dia da Criação, enriquecer a tradição oriental que, desde há séculos, se interroga sobre a relação entre o homem e a criação; o patriarca Bartolomeu conseguiu também com a sua constante chamada de atenção para o património comum do oriente cristão, na sua ação pela salvaguarda da criação, vencer resistências e perplexidades no mundo ortodoxo, onde cada Igreja, mais ou menos lentamente, começou a pensar a relação entre Igreja, religiões, sociedade e criação, criando ocasiões de comunhão real entre ortodoxos. O papa Francisco também contribuiu para tornar tornar o tema da salvaguarda da criação um dos eixos privilegiados da relação entre Roma e Constantinopla: o papa Francisco colocou-se numa tradição  antiga, minoritária, ligada frequentemente a lugares e figuras locais, matizada nas formas  presente na Igreja católica, relançando a ideia de que os católicos têm de estar na primeira linha da denúncia das agressões contra a criação, que determinam novas pobrezas, agravando as já existentes, e na formulação de propostas concretas para uma sociedade mais equitativa na distribuição dos bens e mais respeitosa pelo mundo na definição dos programas económicos. O papa Francisco publicou a encíclica Lodato Si', na qual, desde os primeiros «rumores» que acompanharam a sua redação, surgiu como central a dimensão ecuménica, reafirmada com a instituição, a poucas semanas da publicação da encíclica, de um Dia Mundial da Criação para o dia 1 de setembro, de modo a coincidir com o calendário da Igreja ortodoxa. O constante apelo à Lodato Si', tão presente nas intervenções do papa Francisco, como aconteceu ainda na última viagem à Colômbia, manteve bem viva esta atenção em ordem a um repensamento da relação com a criação, como sinal tangível de uma etapa da Igreja e do mundo.
A Mensagem também tem um significado particular para o diálogo ecuménico à luz de tantas iniciativas em que os cristãos se juntam pela salvaguarda da criação, em tantas partes do mundo, com iniciativas que vão mesmo para além dos confins da ecumene cristã, assumindo uma dimensão interreligiosa. Entre estas iniciativas  muitas das quais com um caminho de várias décadas, agora conhecido e partilhado  recorde-se o empenho do Conselho Ecuménico das Igrejas que vive a tensão ecuménica pela salvaguarda da criação, não só no Tempo da Criação (1 de setembro - 4 de outubro), mas também em diversos momentos do ano, como nas sete semanas da Quaresma, onde é central a reflexão sobre a água. Deste horizonte ecuménico, tão vivo e articulado, faz parte também a Giornata per la custodia del creato, instituída há doze anos pela Conferência Episcopal Italiana, para favorecer uma reflexão, guiada por uma mensagem anual, com um tema e uma passagem bíblica de referência, de modo a envolver toda a sociedade, a partir dos cristãos que ainda não se encontram em comunhão plena e visível com a Igreja católica. Esta Giornata, que inclui sempre uma celebração nacional num lugar sempre diferente  este ano realizou-se em Gubbio para refletir e para rezar sobre «O Senhor está realmente neste lugar e eu não sabia» (Gen 28, 16). Viajantes na terra de Deus  assumiu formas muito diversas nas várias dioceses: estas celebrações têm em comum o desejo de ultrapassar as fronteiras da Igreja católica, que, após as decisões tomadas na III Assembleia Ecuménica Europeia (Sibiu, 4-9 de setembro de 2007), decidiu permitir que esta Giornata se celebrasse no Tempo da Criação, que vai de 1 de setembro a 4 de outubro, o dia em que a Igreja católica faz memória de Francisco de Assis.
Da Mensagem do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu emerge, com renovada força para os cristãos do século XXI, a importância de recordar a todos, a começar pelos fiéis de Roma e de Constantinopla, que é fundamental para a missão do anúncio do evangelho e do seu testemunho no mundo fazem juntos, sempre, o que se pode e deve fazer, como rezar pela salvaguarda da criação, pedindo em alta voz que se ponha fim às agressões contra a natureza para construir uma sociedade mais justa, na qual o desenvolvimento económico esteja em harmonia com o desígnio de Deus para o mundo, de modo a derrotar a marginalização e a pobreza.

Riccardo Burigana

Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca ecuménico Bartolomeu no Dia Mundial de Oração pela Criação

Neste dia 21 de setembro de 2017, em que os cristãos do Grande Porto, se encontram na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, pelas 21.30 h., para um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, disponibilizamos para reflexão a Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu para o Dia Mundial da Criação, ocorrido no passado dia 1 de setembro.

A narração da criação oferece-nos uma visão panorâmica do mundo. A Sagrada Escritura revela que, «no princípio», Deus designou a humanidade como cooperadora na guarda e proteção do ambiente natural. Ao início, como lemos no Génesis (2, 5), «ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar». A terra foi-nos confiada como dom sublime e como herança, cuja responsabilidade todos compartilhamos até que, «no fim», todas as coisas no céu e na terra sejam restauradas em Cristo (cf. Ef 1, 10). A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente interligadas com a solicitude por toda a criação.
«No período intermédio», porém, a história do mundo apresenta uma situação muito diferente. Revela-nos um cenário moralmente decadente, onde as nossas atitudes e comportamentos para com a criação ofuscam a vocação de ser cooperadores de Deus. A nossa tendência a romper os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os limitados recursos do planeta, a avidez de retirar do mercado lucros ilimitados: tudo isto nos alienou do desígnio original da criação. Deixamos de respeitar a natureza como um dom compartilhado, considerando-a, ao invés, como posse privada. O nosso relacionamento com a natureza já não é para a sustentar, mas para a subjugar a fim de alimentar as nossas estruturas.
As consequências desta visão alternativa do mundo são trágicas e duradouras. O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.
Por isso, unidos pela mesma preocupação com a criação de Deus e reconhecendo que a terra é um bem dado em comum, convidamos ardorosamente todas as pessoas de boa vontade a dedicar, no dia 1 de setembro, um tempo de oração pelo ambiente. Nesta ocasião, desejamos elevar uma ação de graças ao benévolo Criador pelo magnífico dom da criação e comprometer-nos a cuidar dele e preservá-lo para o bem das gerações futuras. Sabemos que, no fim de contas, é em vão que nos afadigamos, se o Senhor não estiver ao nosso lado (cf. Sal 126/127), se a oração não estiver no centro das nossas reflexões e celebrações. Na verdade, um dos objetivos da nossa oração é mudar o modo como percebemos o mundo, para mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. O fim que nos propomos é ser audazes em abraçar, nos nossos estilos de vida, uma maior simplicidade e solidariedade.
A quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida. Estamos convencidos de que não poderá haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas, sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de prestar contas do seu agir, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço.

Do Vaticano e do Fanar, 1 de setembro de 2017.

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu

17/09/2017

Tempo de Oração pela Criação no Grande Porto - 21 de setembro de 2017

Divulgamos a mensagem da Comissão Ecuménica do Porto alusiva ao Tempo de Oração pela Criação, previsto para 21 de setembro, às 21.30 h. na Paróquia do Salvador do Mundo da Igreja Lusitana.

“Toda a Criação louva a Deus pois Ele traz justiça e salvação” (Salmo 98)
Tempo de Oração pela Criação – 21 de setembro

Cristãos de todo o mundo e homens e mulheres de boa vontade estão convocados para viverem ativamente o Tempo da Criação, entre 1 de setembro e 4 de outubro.
É um grande movimento ecuménico mundial de oração e compromisso (http://seasonofcreation.org) que nos é proposto pelos líderes das Igrejas ao qual não podemos ser indiferentes.
A nossa Irmã e Mãe Terra geme com o nosso descuido e as alterações climáticas têm dado provas fortíssimas do gradual desequilíbrio por nós provocado. É tempo de orar e transformar velhos hábitos em sinais de vida nova!
Ao nível do Grande Porto a Comissão Ecuménica do Porto, propõe-nos um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, a ter lugar na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, na quinta-feira, dia 21 de setembro, pelas 21.30 h.
Todos estão convidados!

Facebook - evento: (clique aqui) e convide amigos.
Morada da Paróquia do Salvador do Mundo: Largo Arco do Prado, nº 15 – Coimbrões, Vila Nova de Gaia. Junto ao Centro de Saúde Barão do Corvo.

Oração
Deus de toda a Criação,
por interesse próprio e ganância
nós saqueámos os recursos do mundo
e comprometemos a atmosfera e o clima do nosso planeta.
O aquecimento global e a subida do nível das águas do mar ameaçam as nações insulares
e os povos mais vulneráveis e os seus habitats.
Dá-nos uma visão nova sobre o nosso planeta
e cria em nós um novo sentido de justiça social e ecológica.
Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen

15/09/2017

Comunicado da Comissão Ecuménica Diocesana por ocasião do falecimento de D. António Francisco dos Santos


Por ocasião do falecimento de D. António Francisco dos Santos, a Comissão Ecuménica do Porto, que reúne várias Igreja cristãs presentes no Grande Porto, emitiu o comunicado para que remetemos através do seguinte apontador:

31/08/2017

Tempo da Criação - uma iniciativa ecuménica de 1 de setembro a 4 de outubro

O Tempo da Criação acontece todos os anos entre 1 de setembro e 4 de outubro, convidando a 2,2 bilhões de cristãos a cuidar da criação e orar por ela.
O dia 1 de setembro foi proclamado como o Dia de Oração pela Criação (ou seja, o Dia da Criação) pelo Patriarca Ecuménico Demétrio I, em 1989, e foi assumido por outras grandes Igrejas cristãs europeias em 2001 e pelo Papa Francisco na Igreja Católica em 2015.
Nos últimos anos, muitas igrejas cristãs começaram a celebrar o Tempo da Criação entre essa data e 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis.
Ele foi criado para flexibilizar a realização de iniciativas de oração pela criação em datas alternativas durante todo o mês, paralelamente a outras ações de cuidado da criação.
Várias declarações apelam à observância do Tempo da Criação, como as dos Bispos Católicos das Filipinas, em 2003, a Terceira Assembleia Ecuménica Europeia, em Sibiu, em 2007, e o Conselho Mundial de Igrejas em 2008.
Nas celebrações deste ano, as comunidades cristãs estão comprometidas com ações simbólicas em áreas de mineração de carvão, fracking e outros locais de destruição ecológica.
No dia 24 de setembro, uma ação simbólica especial ocorrerá em Taizé, França, na Conferência Europeia da Comissão de Justiça e Paz.  intitulada “Comunhão para responder ao grito da terra e ao grito dos pobres”. O Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE), a Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (COMECE) e a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) estão convidados.


Mais informações em seasonofcreation.org.

PRIMEIRA SEMANA: ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E ECO-JUSTIÇA

Preparação: Decorem o altar com plantas e ramos secos em vez de flores. 
Frase de abertura: A terra seca e murcha… a terra encontra-se poluída sob os seus habitantes.
Ato penitencial: Confessemos o nosso pecado de ganância e amor pelos bens materiais que está a destruir a terra de Deus que os nossos filhos herdarão. 
Hinos: escolham hinos sobre justiça e cuidado com o mundo de Deus. 

Oração própria
Deus de toda a Criação, por interesse próprio e ganância nós saqueámos os recursos do mundo e comprometemos a atmosfera e o clima do nosso planeta. O aquecimento global e a subida do nível das águas do mar ameaçam as nações insulares e os povos mais vulneráveis e os seus habitats. Dá-nos uma visão nova sobre o nosso planeta e cria em nós um novo sentido de justiça social e ecológica. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.

Palavra do Senhor
Primeira Leitura: Gen 6, 9-22 e Gen 9,8-17
A história de Noé: após o grande dilúvio, Deus faz uma aliança com a família de Noé e todos as criaturas vivas.
Salmo: Salmo 98
Toda a criação louva a Deus pois Ele traz justiça e salvação.
Segunda Leitura: Rom 8,18-25 
 Esta passagem reconhece o sofrimento da criação e a nós como parte da teia da criação. Contém igualmente uma visão excitante da redenção futura que nos espera como filhos de Deus. A criação espera que nós lideremos a ação!
Cântico: Um cântico da criação
Evangelho: Mt 8,23–27
As mudanças climáticas levam a cheias e tempestades. Estes acontecimentos climáticos extremos não podem nunca ser apelidados de “atos de Deus”. Devem na realidade ser descritos como “atos de mudança climática induzidos pelo homem”. Na leitura do Evangelho levanta-se uma grande tempestade e os discípulos ficam cheios de medo. Jesus acalma a tempestade, mostrando que Ele tem poder sobre as forças da natureza.

Factos sobre a mudança climática
Os impactos das mudanças climáticas refletem-se nas alterações na água:
- Mais seca: à medida que as temperaturas aumentam, há mais secas que levam à perda de colheitas, ao aumento dos preços dos alimentos e à fome.
- Mais chuvas fortes: à medida que a água dos mares aquece, mais água se evapora e produzem-se  ventos mais fortes, o que leva a maiores tempestades, que destroem casas, estradas e edificações e eliminam a camada superficial dos solos.
- Subida dos níveis das águas das mares: à medida que os mares aquecem, a água expande-se o que, juntamente com o derreter das calotes de gelo, leva à subida dos níveis das águas dos mares. Isto afeta diretamente áreas costeiras e ilhas, destruindo edifícios e tornando o solo salgado. 
 A mudança climática é causada pela queima de combustíveis fósseis como o carvão e o petróleo. Temos de reduzir o nosso uso destes combustíveis e utilizar o mais rapidamente possível energias renováveis, de maneira a evitarmos uma mudança catastrófica do clima.

Bênção
Ide pelo mundo confiantes na esperança pela qual fostes salvos; louvai o Senhor em toda a criação; segui Cristo através de quem todas as coisas foram feitas; pelo poder do Espírito sede faróis de esperança no mundo; e que a bênção do Deus Criador,  o Pai Eterno, o Filho Ressuscitado e o Espírito Santo Prometido, estejam convosco para que possais ser uma bênção para os outros hoje e sempre. Ámen.


11/08/2017

Um ano depois do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa: Que receção?

Uma receção difícil

Em junho do ano passado, na solenidade de Pentecostes, encerrava solenemente em Creta o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa (Kolymbari, 20-26 de junho de 2016). Como notávamos então, «o modo como este concílio será considerado dependerá da receção que terá na consciência e na vida eclesial de toda a ortodoxia».
O metropolita Chrysostomos de Messénia reafirmou que «a receção é um processo contínuo da própria vida da Igreja... é uma questão que dificilmente pode ser superada ou transcurada, visto que constitui a expressão da capacidade do corpo eclesial tornar "suas" as decisões sinodais».
No caso do concílio de Creta, a receção tornou-se mais complexa, como se sabe, pelo facto de quatro das catorze Igrejas que formam a Igreja Ortodoxa (Patriarcado de Antioquia, Patriarcado de Moscovo, Igreja ortodoxa búlgara, Igreja ortodoxa da Geórgia) terem decidido não tomar parte. Nas declarações oficiais dos sínodos dessas Igrejas, a assembleia de Creta, mesmo se considerada «um acontecimento importante», não é reconhecida como «Santo e Grande Concílio» e às suas decisões não é atribuído valor vinculante. O Patriarcado de Moscovo e o da Geórgia confiaram o exame dos documentos conciliares (os seis documentos aprovados, juntamente com a Encíclica e a Mensagem) a comissões teológicas próprias, para avaliar se podem constituir a base de discussão para um próximo concílio.
Numa entrevista recente, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, à frente do departamento para as relações externas do Patriarcado de Moscovo, definiu o concílio de Creta «um concílio de dez Igrejas ortodoxas locais» e «um importante passo para um concílio pan-ortodoxo» e afirmou que «de momento continuamos a estudar as decisões do concílio de Creta, e os nossos teólogos estão a trabalhar. Brevemente deveremos dar o nosso parecer sobre estes documentos, mas consideramos que a nossa tarefa principal, depois do concílio como já tinha sido antes dele, é a de reforçar a unidade pan-ortodoxa e de nos abstermos de todos os passos que possam prejudicar esta unidade».
O concílio de Creta é assim concebido como o primeiro passado de um caminho conciliar que está ainda em curso e que tem de continuar com o concurso de todas as Igrejas ortodoxas.
Aliás, na sua Mensagem aos fiéis ortodoxos e a todas as pessoas de boa vontade, o concílio de Creta tinha «formulado a proposta de fazer do Santo e Grande Concílio uma instituição a convocar a cada 7 ou 10 anos». O Patriarcado da Roménia já se declarou disponível para receber um futuro concílio, «abrindo» também para a posição das Igrejas não presentes em Creta: «Os textos [dos documentos conciliares] podem ser explicados, em parte matizados ou desenvolvidos por um futuro Grande e Santo Concílio da Igreja Ortodoxa. Todavia, a sua interpretação e a redação dos novos textos sobre diversas questões não devem ser realizadas com precipitação e sem acordo pan-ortodoxo, mas devem ser retardados e revistos até que se encontro um pleno acordo». A Igreja da Roménia confirma assim o seu precioso papel mediador, fazendo entrever a possibilidade de uma «terceira solução», alternativa quer à receção dos documentos conciliares como vinculantes, quer à sua total recusa. Até agora a proposta não obteve respostas.
As Igrejas, como Patriarcado ecuménico, que insistem em defender a «autoridade pan-ortodoxa» das decisões tomadas no concílio apelam para o regulamento do próprio concílio, aprovado pelos primazes de todas as Igrejas ortodoxas em janeiro de 2016 (cf. Regulamento, art. 14, par. 2). Algumas Igrejas locais, como a Igreja da Grécia e a Igreja do Chipre, publicaram nos meses passados encíclicas e comunicados para informarem o conjunto do povo ortodoxo sobre os conteúdos do Santo e Grande Concílio realizado em Creta. O Santo Sínodo da Igreja da Grécia afirmou que «os textos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa constituem objeto de aprofundamento e de ulterior reflexão. Isto vale para todos os concílio da Igreja. O diálogo teológico não está interrompido. Pressuposto certamente necessário é que seja guardada intacta a verdade teológica e que este diálogo seja realizado sem fanatismos nem contraposições, sem conspirações nem divisões que firam a unidade da Igreja. As divisões (cismas) são graves doenças espirituais. Segundo as palavras de São João Crisóstomo, "dividir a Igreja, cultivar a discórdia e gerar dissensões e afastar-se continuamente do caminho comum (sínodo) é imperdoável e digno de condenação" (PG 48, 872). Por isso, exortam-se os fiéis e não darem peso às palavras daqueles que os impelem a afastarem-se da Igreja para constituírem um grupo separado do corpo eclesial, fazendo apelo a motivos fantasiosos de correção dogmática».
Muito importante foi também a aprovação das decisões conciliares por parte do Santo Sínodo do Patriarcado da Sérvia, considerando que no seu interior se tinham manifestado inicialmente oposições ao concílio ao ponto de ter sido colocada em dúvida a sua participação nele.

As oposições ao concílio

O comunicado da Igreja da Grécia alude a alguns grupos «zelotes» contrários desde o início à própria ideia do concílio e agora mais do que nunca intrépidos opositores das suas decisões (particularmente hostilizada a aceitação do termo «Igrejas» para as comunidades cristãs não ortodoxas).
Semelhantes oposições «tradicionalistas» emergiram também no interior das outras Igrejas ortodoxas, como por exemplo na Igreja da Roménia e do Chipre; estes grupos de oposição são transversais relativamente a cada Igreja autocéfala para procurarem apoio recíproco e empreenderem mais eficazmente a sua batalha comum.
Como notou o teólogo ortodoxo Paul Ladouceur «o neotradicionalismo na ortodoxia é caraterizado pela insistência numa estrita adesão à letra da tradição antiga que se reflete na teologia patrística, na liturgia e no direito canónico. Manifesta-se emblematicamente através de um sistemático e estridente anti-ocidentalismo, que evidencia os factores e«históricos, culturais, teológicos e sociopolíticos  que distinguem o cristianismo oriental do ocidental, muitas vezes transcurando ou desvalorizando oportunamente elementos que os unem» (Neo-Tradicionalism in Orthodoxy and the Great and Holy Council).
Estas oposições manifestaram-se no interior das Igreja da Grécia, com o apoio aberto, em alguns casos, dos bispos locais, chegando mesmo à grave decisão de rutura da comunhão eucarística, criando confusão e desconcerto no povo de Deus. O Patriarca Ecuménico, numa carta pessoal ao Arcebispo Hieronymos de Atenas (de 19 de novembro de 2016), exortou-o a tomar medidas adequadas no confronto com estes bispos, clérigos, monges e leigos que criam escândalo e divisão na Igreja, opondo-se às decisões do concílio.
A situação de tensão parece hoje estar recomposta. O próprio Patriarca Ecuménico Bartholomeos, na recente visita a Atenas, a 7 de junho de 2017, agradeceu ao Arcebispo Hieronymos pelo seu «apoio absoluto» durante o grande acontecimento do Santo e Grande Concílio.
Na mesma circunstância, o Patriarca falou da necessidade de que as decisões do concílio sejam dadas a conhecer mais adequadamente, sublinhando que «agora, todos juntos, temos de aplicar as decisões do concílio. Muitas faculdades teológicas e teólogos individualmente já as desenvolvem. Está, por isso, em preparação um grande congresso teológico inter-ortodoxo para Salónica, em abril de 2018, com o objetivo de que as decisões deste concílio sejam difundidas o mais amplamente possível, de modo a chegarem à posse dos fiéis ortodoxos».

O debate teológico

O acontecimento e os temas do concílio animam o debate teológico ortodoxo, como testemunham os numerosos congressos deste ano: o congresso organizado de 26 a 28 de abril de 2017 pela Faculdade teológica e pelo Centro de Estudos de direito canónico da Universidade de Babeș-Bolylai (Cluj-Napoca, Roménia), «O Santo e Grande Concílio: Acontecimento escatológico ou normalidade eclesial?»; o congresso organizado pela diocese grega de Katerini a 11 de maio, «O dia seguinte ao Santo e Grande Concílio: Perspetivas e esperanças»; o seminário desenvolvido em 16 de maio na Academia de Creta, «Aproximação teológica aos textos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoca», onde, na sua mensagem, o Patriarca Ecuménico sublinhou que «O Santo e Grande Concílio de Creta... representa, sem dúvida, o acontecimento mais importante da nossa Igreja Ortodoxa nos últimos anos, realizado para o reforço da sua unidade e do funcionamento da instituição conciliar no seu interior».
Como escreveu um teólogo da diáspora ortodoxa norte-americana, Athanasios Giocas, «em definitivo, o concílio de 2016, tanto nos seus sucessos como nos seus percebidos defeitos, reflete as forças e as debilidades do curso histórico da Igreja visível. Agora mais do que nunca é tempo para uma cauta reflexão, com o objetivo de aprender com a experiência do concílio, tanto com os seus aspetos positivos como com os negativos, em ordem a confirmar (ou repensar) o formato do próximo concílio». Um desejo semelhante foi formulado por um teólogo da Igreja de Antioquia, Assaad Elias Kattan, aliás crítico dos resultados do concílio: «O que espera as Igrejas ortodoxas depois do concílio de Creta é bastante mais importante do que o que o precedeu. Os ortodoxos encontram-se, portanto, ainda no início do caminho quando se trata das grandes questões e dos grandes desafios presentes no nosso mundo contemporâneo. Neste sentido o concílio de Creta era indispensável para que pudéssemos aprender. Esperando, claro, que aprendamos...».
O caminho do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa neste ano realizou os seus primeiros passos. O bispo Maxim (diocese ocidental dos Estados Unidos da América do Patriarcado da Sérvia), no seu Diário do Concílio, anota: «Para a opinião repetidamente formulada, segundo a qual este concílio não é nem Santo nem Grande por causa de algumas das suas deficiências, não há outra resposta a dar que esta: será o futuro a dar significado e substância ao passado. O período que se seguirá ao concílio mostrará se este concílio correspondeu e realizou o critério dos concílios ecuménicos» (Diary of the Council. Reflections fron the Holy and Great Council, Los Angeles - Creta 2016, pp. 41-42).
Estamos convencidos da verdade das palavras pronunciadas pelo Patriarca Bartholomeos no encerramento do concílio de Creta: «O significado e o peso deste concílio está, em primeiro lugar, no próprio facto de ter sido realizado, por graça de Deus, depois de tantos séculos durante os quais não tinha sido possível. Só isto bastaria para o tornar num dos grandes acontecimentos da história da Igreja».
De resto, como afirmou o Arcebispo Jovan de Ochrida, «os problemas citados... parecem pequenos diante da grandeza do acontecimento do concílio. E a partir do momento em que se encontrou a força para realizar este concílio, apesar dos muitos obstáculos, agora, depois do concílio, tudo parece mais promissor. O passo do nada ao mínimo é bastante maior do que o do mínimo ao muito».


04/07/2017

As Igrejas da Reforma



A concluir o ciclo realiza-se uma mesa-redonda com os representantes das Igrejas da Reforma:
- Bispo D. Jorge Pina Cabral (Igreja Lusitana - Comunhão Anglicana)
- Bispo Sifredo Teixeira (Igreja Evangélica Metodista Portuguesa)
- Diácono Peter Eisele (Igreja Evangélica Alemã do Porto)
4 de julho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.


26/06/2017

A Reforma em Portugal

António Manuel Silva
27 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.


20/06/2017

A Reforma e a literatura: De Constantino de la Fuente (+1559) a Valentim da Luz (+1562) - questões de dissidência e identidade na história do luteranismo hispânico



A Reforma e a literatura: De Constantino de la Fuente (+1559) a Valentim da Luz (+1562) -
- questões de dissidência e identidade na história do luteranismo hispânico
Pedro Vilas Boas Tavares
20 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

Após breve enquadramento histórico, a partir de dois casos melhor conhecidos em Espanha e Portugal, de alegados e surpreendentes "sequazes" de Lutero, problematizam-se formas de abordagem da historiográfica, nomeadamente da história e literatura da espiritualidade, suscetíveis de ajudarem a melhor fazer perceber os fenómenos de "qualificação" doutrinal-institucional coevos, pelas condições objetivas do sistema e da conjuntura repressivas, desde logo induzindo
estratégias confessionais (ofensivas e defensivas) de "amálgama" entre diferentes correntes de espiritualidade e de práticas nicodemíticas.

09/06/2017

A Reforma e a arte: A Reforma e a arquitetura eclesiástica do Norte de Portugal no século XVI



A Reforma e a arte: A Reforma e a arquitetura eclesiástica do Norte de Portugal no século XVI
José Ferrão Afonso
13 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

A Reforma está associada, na arquitectura eclesiástica do Norte de Portugal, ao desenvolvimento de novas apologias, espacialidades e conceitos ornamentais, processo que se inicia ainda antes do Concílio de Trento e terá pontos fulcrais nas Misericórdias, na arquitectura jesuíta e nas igrejas construídas por Frei Bartolomeu dos Mártires e Frei Agostinho de Jesus.

05/06/2017

A Reforma e a economia: As origens do capitalismo moderno

Nuno Ornelas
6 de junho de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

A Reforma tem sido associada à génese do capitalismo moderno. Podemos no entanto questionar até que ponto será correta esta leitura, sendo para tal necessário identificar primeiro quais os traços fundamentais do capitalismo moderno, para de seguida poder avaliar qual a relação entre a Reforma e  as caraterísticas fundamentais do capitalismo moderno.

01/06/2017

Fátima e o ecumenismo

Os acontecimentos de Fátima e o lugar de Fátima no catolicismo português são assuntos incómodos no contexto do diálogo ecuménico. Na último fascículo de O Novo Despertar (n. 174, Maio de 2017), publicação da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), saíram dois textos com reflexões de muito interesse que evidenciam tais perplexidades. Referimo-nos a Fátima e a questão ecuménica (pp.18-19), de D. Jorge Pina Cabral, bispo da referida Igreja, e A propósito do centenário das aparições de Fátima (pp. 20-21), de D. Fernando Soares, bispo emérito da mesma Igreja. O primeiro desses textos sobretudo refere as dificuldades que Fátima coloca às demais Igrejas que participam no diálogo ecuménico, assim como aponta caminhos para todas as Igrejas, no que ao lugar de Maria se refere.
Fez-nos lembrar este texto um pequeno artigo que José Eduardo Borges de Pinho, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e especialista em ecumenismo, publicou já há anos do jornal Voz Portucalense, sob o título Fátima - pesadelo para o ecumenismo?. Creio que no contexto do centenário dos acontecimentos de Fátima, vale a pena recuperar este texto, como também vale a pena ler e refletir sobre os textos oriundos da Igreja Lusitana que antes referimos. O ecumenismo constrói-se sobre o conhecimento mútuo do que nos aproxima e das dificuldades que subsistem. Sobre Maria e particularmente sobre Fátima há de facto dificuldades e «não existe ainda contexto eclesial ecuménico maduro», como refere D. Jorge Pina Cabral no seu texto.
É possível, contudo, ir dando espaço à questão. Nas últimas Jornadas de Teologia da Universidade Católica no Porto, que versaram sobre Maria, também se refletiu sobre Maria no desafio de uma espiritualidade ecuménica e no Congresso Internacional do Centenário de Fátima, que se realiza de 21 a 24 de junho próximos, José Eduardo Borges de Pinho regressará ao tema com uma comunicação precisamente sobre Fátima e a questão ecuménica, que aguardamos com muita expectativa.
Por agora, damos a conhecer os três textos referidos, ao mesmo tempo que remetemos para a leitura dos documentos do diálogo ecuménico sobre Maria, nomeadamente o texto do Grupo Ecuménico de Dombes Maria no projeto de Deus e a comunhão dos santos de 1997-98 (Gráfica de Coimbra, 1998) e o texto da Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana Maria: graça e esperança em Cristo de 2005.

Fátima - pesadelo para o ecumenismo?
Borges de Pinho

1. O título que me foi proposto para esta nota pode parecer excessivo, e assim o senti num primeiro momento. Todavia, logo me vieram à memória os depoimentos que, há não muitos anos, recolhi junto de diversos representantes de Igrejas e Comunidades Eclesiais existentes em Portugal, em ordem a uma comunicação num Congresso Mariológico Internacional. O teor das respostas não deixava qualquer dúvida: Fátima constitui mesmo um dos obstáculos maiores para o ecumenismo no nosso país.
2. Mas porquê é Fátima essa pedra de tropeço? As razões são várias e prendem-se tanto com convicções fundas do protestantismo em geral como com aspetos particulares relativos a Fátima. Enumero algumas delas:
- Antes de mais, a visão protestante sobre o viver crente em Igreja, enraizada num certo entendimento da justificação pela fé, tem dificuldades em admitir uma cooperação positiva de Maria na obra da salvação, vendo aí um ofuscamento ou mesmo um pôr em causa da centralidade de Cristo como único mediador entre Deus e os homens; 
- Nessa mesma ordem ideias, há pouca recetividade para uma comunhão dos santos que transcenda as circunstâncias do viver humano no tempo, pelo que só se invoca a Deus e rejeita-se qualquer invocação de Maria (e dos santos);
- Não se aceitam também os pressupostos católicos que estabelecem algum paralelismo tipológico entre Maria e o mistério da Igreja (Maria como tipo e modelo da Igreja);
- Já noutro plano, as expressões de religiosidade popular (promessas, sacrifícios e sua compreensão, etc.) que se associam a Fátima são vistas como desvio ao Evangelho;
- Além disso, por princípio, o protestantismo recusa atribuir qualquer significado a revelações particulares (contrárias, no seu entendimento, à exclusividade da Escritura);
- Finalmente, na ótica protestante, Fátima tem sido utilizada pela Igreja Católica duma forma que consideram inadequada (Fátima como símbolo do papel e do "poder" que a Igreja Católica tem em Portugal).
3. Como católicos creio que faríamos mal em ignorar, pura e simplesmente, estas ou outras observações críticas, como se não houvesse lugar aqui também para alguns questionamentos e purificações.
Desde logo porque, também para nós, o lugar de Maria no acontecimento cristão só é correta e devidamente compreendido e valorizado dentro da centralidade cristológica que estrutura a existência cristã.
Depois, porque o Concílio Vaticano II lembrou, precisamente no contexto do ecumenismo, que há uma "hierarquia das verdades" da fé a ter em conta, e esta estruturação da fé - tanto a nível doutrinal como existencial - nunca deve ser esquecida.
Além disso, não podemos ignorar que, se Fátima tem sido para milhões de pessoas lugar de encontro com Deus, também é verdade que, como realidade multifacetada que é, não esteve (está) imune a ambiguidades e nem sempre tem sido (é) encarada de modo adequado às exigências da maturidade da fé e à perceção do verdadeiro Deus.
Em síntese: também para nós se justifica sempre de novo a pergunta como e em que medida Fátima é e pode ser lugar acolhimento da mensagem evangélica. Por isso mesmo, Fátima tem de ser continuamente acompanhada pela reflexão teológico-pastoral e por uma consciência eclesial atenta e clarividente.
4. Sensíveis a esta saudável autocrítica, creio que podemos e devemos, então, colocar também algumas questões e fazer algumas propostas aos outros cristãos.
Pode-se lembrar, por exemplo, que um certo "esquecimento" de Maria, em que a tradição protestante caiu, não se justifica por razões de Evangelho, mas resulta sobretudo de unilateralismos de polémica confessional. Maria faz parte do Evangelho de Jesus e da história comunitária de fé no seu seguimento, a exemplaridade da fé de Maria é modelo permanente do nosso peregrinar crente.
Por outro lado, deve-se tornar inequivocamente claro (na teoria e na prática) que, também para nós, o papel desempenhado por Maria na obra da salvação não é algo independente de Cristo ou ao seu lado, antes só pode acontecer em subordinação a Ele e de um modo derivado d'Ele (Maria é expressão culminante da salvação pela graça). 
Também se deve explicitar melhor porquê e como a existência crente não é uma realidade de pendor "individualista", mas caminho em Igreja, numa solidariedade na fé que envolve autêntica comunhão dos santos.
Igualmente será de perguntar se não se deve partir duma conceção menos "racionalista" da fé, capaz de valorizar de forma mais justa os múltiplos caminhos da fé das pessoas e do seu (insondável aos nossos olhos) encontro com o Mistério de Deus. 
Sobretudo, será oportuno recordar que, dentro da referida "hierarquia das verdades", todo este campo da mariologia e da devoção mariana é certamente um lugar privilegiado para irmos experimentando caminhos de maior tolerância mútua, no respeito pela legítima diversidade (desde que uma diversidade não contrária ao Evangelho).
E, enfim, há um dado de facto que nos tem de interpelar a todos: não obstante possíveis (e reais) deformações, Fátima foi (e continuará a ser) para muita gente lugar de descoberta da mensagem do Evangelho.
5. Os caminhos do ecumenismo não são fáceis, e este ponto é particularmente delicado: não apenas por razões doutrinais, mas por todo o conjunto de emoções que, de um lado e de outro, suscita. Por isso mesmo, sobretudo em questões como esta, não basta o diálogo teológico-doutrinal (ainda que, como mostra o último documento do Grupo de Dombes, há já uma base sólida para um diálogo ecuménico sereno sobre Maria). Antes, é preciso todo um caminho global de aproximação entre pessoas e comunidades na valorização do que já têm comum e do que é verdadeiramente essencial na vivência e no testemunho cristãos. 
Nessa via, que não é certamente a do curto prazo, mas de persistente busca de fidelidade ao Evangelho, Maria pode deixar de ser vista e sentida como obstáculo, para se tornar estímulo e apoio à aproximação dos cristãos. É minha esperança que a redescoberta em comum de Maria - à luz do testemunho bíblico e sempre no respeito pela legítima diversidade de tradições, experiências de fé, piedades - venha a ser um impulso significativo, também com o contributo da rica tradição do Oriente, no caminho para a unidade dos cristãos.

Fátima e a questão ecuménica (pp. 18-19)
+ Jorge Pina Cabral
A propósito do centenário das aparições de Fátima (pp. 20-21)
+ Fernando Soares

25/05/2017

A Reforma e a cultura: A Reforma entre o fim da Idade Média e o individualismo moderno


A Reforma e a cultura: A Reforma entre o fim da Idade Média e o individualismo moderno
Arnaldo de Pinho
30 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

Trataremos da questão do impacte da “reforma” em sentido amplo antes da afirmação do protestantismo e da  contra reforma. Obviamente não deixaremos de fazer um enquadramento sobre o universo de ideias e inquietações que percorrem a Europa já no século XV. Mas abordaremos essencialmente a conjuntura ideológica e a crise religiosa do século XVI.


17/05/2017

A Reforma e as ideias: A conjuntura ideológica e a crise religiosa do século XVI


A Reforma e as ideias: A conjuntura ideológica e a crise religiosa do século XVI
José Esteves Pereira
23 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

1. As formas de vida e de pensamento no final da Idade Média:
presença da morte e sentimento de culpabilidade
2. Renascimento e humanismo: Erasmo e Lutero.
3. Livre arbítrio e arbítrio servo: Lutero humanista?
4. Protestantismo e mentalidade capitalista: Calvinismo e puritanismo

12/05/2017

A Reforma e a Política: O desenvolvimento político da Europa na sequência da Guerra dos anos 30


A Reforma e a Política:
O desenvolvimento político da Europa na sequência da Guerra dos anos 30
Helena Vilaça
16 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.


A Reforma protestante vai ser determinante dos desenvolvimentos políticos da Europa e respetiva geografia. A Guerra dos trinta anos é disso exemplo. A ênfase na salvação pela fé de acordo com a decisão de cada um constitui uma das raízes do individualismo contemporâneo com consequências para o constitucionalismo e a democracia liberais, hoje assente numa consciência que deixou de ter como fundamento a Bíblia e mais genericamente a religião. Nessa medida, a Reforma Protestante terá como efeito (perverso) a secularização da vida social.

Apresentação da conferência:



A conferência:

05/05/2017

A Reforma e a Teologia: Uma releitura de Lutero numa perspetiva ecuménica


A Reforma e a Teologia: Uma releitura de Lutero numa perspetiva ecuménica
José Eduardo Borges de Pinho
9 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

1.O pensamento teológico de Lutero - Pressupostos hermenêuticos e elementos inovadores
2. Releitura ecuménica da Reforma luterana no diálogo teológico católico-luterano
3.A Reforma luterana como interpelação, 50 anos depois do Concílio

30/04/2017

Martinho Lutero: o Reformador e a sua época

Francisco Ribeiro da Silva
2 de maio de 2017
Centro de Cultura Católica - Porto, 21.00 h.

Martinho Lutero foi um protagonista da História porque iniciou um movimento de reforma religiosa em 1517 que acabou por dividir e separar os cristãos. A separação permanece até aos dias de hoje, com outras dimensões para além da religiosa.
As comemorações dos 500 anos de separação entre Católicos e Protestantes não devem ser feitas senão em perspetiva ecuménica, interessada em buscar caminhos de reaproximação e de reconquista da unidade perdida.
Mas factos são factos. A Reforma luterana, para ser entendida, deve ser situada no seu tempo histórico. Ora o tempo histórico da Reforma, sob o ponto de vista mais geral da civilização europeia, foi um tempo de charneira, de passagem da Idade Media para os tempos Modernos e de início de uma certa globalização. Mudanças profundas causadas por acontecimentos estruturantes como a invenção da imprensa, a descoberta das Américas e do caminho marítimo para a Índia, o início da revolução científica, a queda do Império Bizantino e da conquista de Constantinopla pelos Turcos, o Humanismo e o Renascimento, o dealbar do capitalismo comercial.
Se Martinho Lutero foi o protagonista da Reforma, justifica-se que nos debrucemos sobre ele. Primeiro procuraremos conhecer o juízo que dele foi feito pelos historiadores protestantes e católicos ao longo destes quinhentos anos. Esse juízo vai da mitificação dos admiradores à quase maldição dos detratores. Mas, a partir do séc. XX foi possível um julgamento mais sereno, com base na documentação histórica. A conclusão hoje mais ou menos consensual é que Lutero foi um homem e um monge profundamente religioso e empenhado em encontrar o Deus verdadeiro e em promover a sua glória.
Depois, conheceremos algo mais das circunstâncias de Lutero e perceber por que é que a questão da salvação eterna foi para ele um problema existencial angustiante. Verificaremos que essa questão não foi motivo de ansiedade apenas para ele mas também para o era para as pessoas da sua época, no sentido colectivo mas também das pessoas individualmente consideradas. Estudaremos como é que ele chegou à descoberta do ponto fundamental da sua teologia que é a justificação pela fé, isto é, à certeza de que a salvação de cada um não é merecida pelas obras praticadas, mas é obtida apenas pela graça de Deus, através da fé. E como essa descoberta respondeu e correspondeu aos anseios de muitos.
Mas o sucesso da Reforma não está apenas no sossego espiritual que adveio da «descoberta» de Lutero mas também de outras circunstâncias históricas externas propícias que analisaremos. Como o desenvolvimento da Reforma teve o seu ponto de partida em 1517 e na publicitação das 95 teses sobre o poder e a eficácia das indulgências, daremos alguma atenção a este episódio e ao seu peso na Reforma. Esclareceremos finalmente que a súmula doutrinal de Lutero foi além da justificação pela fé e incluiu a afirmação do sacerdócio universal e a indicação da Bíblia como única fonte da revelação de Deus.

Declaração conjunta de Sua Santidade Francisco e de Sua Santidade Tewandros II (Igreja copta)

1. Nós, Francisco, Bispo de Roma e Papa da Igreja Católica, e Tawadros II, Papa de Alexandria e Patriarca da Sé de São Marcos, no Espírito Santo damos graças a Deus por nos ter concedido a feliz oportunidade de nos encontrarmos mais uma vez, trocarmos o abraço fraterno e juntarmo-nos novamente em oração comum. Damos glória ao Todo-Poderoso pelos laços de fraternidade e amizade existentes entre a Sé de São Pedro e a Sé de São Marcos. O privilégio de estar juntos aqui no Egito é um sinal de que a solidez do nosso relacionamento tem aumentado de ano para ano e de que estamos a crescer na proximidade, na fé e no amor de Cristo nosso Senhor. Damos graças a Deus pelo amado Egito, «terra natal que vive dentro de nós», como costumava dizer Sua Santidade Papa Shenouda III, «povo abençoado pelo Senhor» (cf. Is 19, 25) com a sua antiga civilização dos Faraós, a herança grega e romana, a tradição copta e a presença islâmica. O Egito é o lugar onde a Sagrada Família encontrou refúgio, é terra de mártires e santos.

2. O nosso vínculo profundo de amizade e fraternidade tem a sua origem na plena comunhão que existia entre as nossas Igrejas nos primeiros séculos tendo-se expressado de várias maneiras nos primeiros Concílios Ecuménicos, a começar pelo Concílio de Niceia em 325 e a contribuição de Santo Atanásio, corajoso Padre da Igreja que mereceu o título de «Protetor da Fé». A nossa comunhão manifestava-se através da oração e práticas litúrgicas semelhantes, da veneração dos mesmos mártires e santos, e no fomento e difusão do monaquismo, seguindo o exemplo do grande Santo Antão, conhecido como o pai de todos os monges.
Esta experiência comum de comunhão, anterior ao tempo de separação, assume um significado especial na nossa busca atual do restabelecimento da plena comunhão. A maior parte das relações que existiam nos primeiros séculos continuaram, apesar das divisões, entre a Igreja Católica e a Igreja Copta Ortodoxa até ao dia de hoje e recentemente foram mesmo revitalizadas. Estas desafiam-nos a intensificar os nossos esforços comuns, perseverando na busca duma unidade visível na diversidade, sob a guia do Espírito Santo.

3. Recordamos, com gratidão, o encontro histórico de há quarenta e quatro anos entre os nossos predecessores Papa Paulo VI e Papa Shenouda III, aquele abraço de paz e fraternidade depois de muitos séculos em que os nossos vínculos mútuos de amor não tiveram possibilidade de se expressar devido à distância que se criara entre nós. A Declaração Comum, que eles assinaram em 10 de maio de 1973, representou um marco no caminho ecuménico e serviu como ponto de partida para a instituição da Comissão de Diálogo Teológico entre as nossas duas Igrejas, que produziu muito fruto e abriu o caminho para um diálogo mais amplo entre a Igreja Católica e toda a família das Igrejas Ortodoxas Orientais. Naquela Declaração, as nossas Igrejas reconheceram que, no sulco da tradição apostólica, professam «uma só fé no Deus Uno e Trino» e «a divindade do Unigénito Filho de Deus (...) perfeito Deus, quanto à sua divindade, e perfeito homem quanto à sua humanidade». Reconheceu-se também que «a vida divina é-nos dada e alimentada em nós pelos sete sacramentos» e que «veneramos a Virgem Maria, Mãe da verdadeira Luz», a «Theotókos».

4. Com profunda gratidão, recordamos o encontro fraterno que nós próprios tivemos em Roma, a 10 de maio de 2013, e a instituição do dia 10 de maio como jornada anual em que aprofundamos a amizade e a fraternidade entre as nossas Igrejas. Este renovado espírito de proximidade permitiu-nos discernir ainda melhor como o vínculo que nos une foi recebido de nosso único Senhor no dia do Batismo. Com efeito, é através do Batismo que nos tornamos membros do único Corpo de Cristo que é a Igreja (cf. 1 Cor 12, 13). Esta herança comum é a base da peregrinação que juntos realizamos rumo à plena comunhão, crescendo no amor e na reconciliação.

5. Conscientes de que ainda há tanto caminho a fazer nesta peregrinação, recordamos o muito que já foi alcançado. Em particular, lembramos o encontro entre Papa Shenouda III e São João Paulo II, que veio como peregrino ao Egito durante o Grande Jubileu do ano 2000. Estamos determinados a seguir os seus passos, movidos pelo amor de Cristo Bom Pastor, na convicção profunda de que, caminhando juntos, crescemos em unidade. Para isso auferimos a força de Deus, fonte perfeita de comunhão e de amor.

6. Este amor encontra a sua expressão mais alta na oração comum. Quando os cristãos rezam juntos, chegam a compreender que aquilo que os une é muito maior do que aquilo que os divide. O nosso desejo ardente de unidade encontra inspiração na oração de Cristo «para que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Para isso aprofundemos as raízes que compartilhamos na única fé apostólica, rezando juntos e procurando traduções comuns do Pai Nosso e uma data comum para a celebração da Páscoa.

7. Enquanto caminhamos para o dia abençoado em que finalmente nos reuniremos à mesma Mesa Eucarística, podemos colaborar em muitas áreas e tornar tangível a grande riqueza que já temos em comum. Podemos testemunhar juntos certos valores fundamentais como a sacralidade e dignidade da vida humana, a sacralidade do matrimónio e da família, e o respeito por toda a criação, que Deus nos confiou. Não obstante a multiplicidade de desafios contemporâneos, como a secularização e a globalização da indiferença, somos chamados a oferecer uma resposta compartilhada baseada nos valores do Evangelho e nos tesouros das nossas respetivas tradições. Nesta linha, somos encorajados a aprofundar o estudo dos Padres Orientais e Latinos e promover um frutuoso intercâmbio na vida pastoral, especialmente na catequese e num mútuo enriquecimento espiritual entre comunidades monásticas e religiosas.

8. O testemunho cristão que compartilhamos é um sinal providencial de reconciliação e esperança para a sociedade egípcia e suas instituições, uma semente semeada para frutificar na justiça e na paz. Uma vez que acreditamos que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, esforcemo-nos por promover a tranquilidade e a concórdia através duma coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos, testemunhando assim que Deus deseja a unidade e a harmonia de toda a família humana e a igual dignidade de cada ser humano. Temos a peito a prosperidade e o futuro do Egito. Todos os membros da sociedade têm o direito e o dever de participar plenamente na vida do país, gozando de plena e igual cidadania e colaborando para construir a sua nação. A liberdade religiosa, que engloba a liberdade de consciência e está enraizada na dignidade da pessoa, é a pedra angular de todas as outras liberdades. É um direito sagrado e inalienável.

9. Intensifiquemos a nossa oração incessante por todos os cristãos no Egito e em todo o mundo, especialmente no Médio Oriente. Alguns acontecimentos trágicos e o sangue derramado pelos nossos fiéis, perseguidos e mortos unicamente pelo motivo de ser cristãos, recordam-nos ainda mais que o ecumenismo dos mártires nos une e encoraja no caminho da paz e da reconciliação. Pois, como escreve São Paulo, «se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26).

10. O mistério de Jesus, que morreu e ressuscitou por amor, situa-se no coração do nosso caminho para a plena unidade. Mais uma vez, os mártires são os nossos guias. Na Igreja primitiva, o sangue dos mártires foi semente de novos cristãos; assim também, em nossos dias, o sangue de tantos mártires seja semente de unidade entre todos os discípulos de Cristo, sinal e instrumento de comunhão e de paz para o mundo.

11. Obedientes à ação do Espírito Santo, que santifica a Igreja, a sustenta ao longo dos séculos e conduz àquela unidade plena pela qual Cristo rezou,

hoje nós, Papa Francisco e Papa Tawadros II, para alegrar o coração do Senhor Jesus bem como os corações dos nossos filhos e filhas na fé, declaramos mutuamente que, com uma só mente e coração, procuraremos sinceramente não repetir o Batismo administrado numa das nossas Igrejas a alguém que deseje juntar-se à outra. Isto confessamos em obediência às Sagradas Escrituras e à fé expressa nos três Concílios Ecuménicos reunidos em Niceia, Constantinopla e Éfeso.
Pedimos a Deus nosso Pai que nos guie, nos tempos e modos que o Espírito Santo dispuser, para a unidade plena no Corpo místico de Cristo.

12. Concluindo, deixemo-nos guiar pelos ensinamentos e o exemplo do apóstolo Paulo, que escreve: «[Esforçai-vos] por manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos» (Ef 4, 3-6).

Cairo, 28 de abril de 2017

14/04/2017

Esforços rumo a uma data comum para a Páscoa: uma situação sem esperança?

Este ano os cristãos têm uma ocasião excecional para manifestarem a sua unidade ao celebrarem a ressurreição de Jesus Cristo na mesma data. Mas isto não voltará acontecer até 2025, se as Igrejas continuarem a seguir cada uma o seu modo tradicional de calcularem a data da Páscoa.
Parece um paradoxo: todas as Igrejas concordam em celebrar a Páscoa no primeiro domingo após a primeira lua cheia do equinócio de março [1], mas há normalmente duas datas diferentes para esta celebração. A razão da contradição é que, após a introdução deste critério, as Igrejas do ocidente adotaram maioritariamente o calendário gregoriano, enquanto as ortodoxas mantiveram o calendário juliano para determinarem a data da lua cheia [2].
Este problema foi percebido como tal sobretudo no século XX. A questão investiu particularmente contra a Igreja ortodoxa, quando em 1923 o Parlamento grego introduziu o calendário gregoriano, dando início a um conflito entre a Igreja e o Estado [3]. Um congresso pan-ortodoxo de maio de 1923 decidiu, por isso, rever o calendário juliano adaptando-o a uma maior exatidão astronómica. Mas resultaram roturas na Igreja grega, na romena e em outras. Hoje, no mundo ortodoxo, a situação geral é que para a data da Páscoa todas as Igrejas usam o calendário juliano (com exceção da Igreja da Finlândia, que segue o gregoriano), enquanto para todas as outras festas, algumas Igrejas – em particular as de língua grega e a romena – usam o calendário gregoriano.
Com a crescente mobilidade das pessoas e a gradual interconexão entre nações e países, em razão do comércio e dos negócios que os novos meios de transporte e de comunicação tornaram possíveis, começou a advertir-se também no âmbito civil a exigência de uma regulamentação mais clara da data da Páscoa. A sua irregularidade e mobilidade anual criavam desvantagens sobretudo ao nível de compensações financeiras. Por isso, em 1923 a Sociedade das Nações avançou com a proposta de fixar, depois de acordo com as Igrejas, a Páscoa no domingo seguinte ao segundo sábado de abril. Assim a matéria foi objeto de discussão do incipiente movimento ecuménico, com o envolvimento da Comissão cristã universal Vida e Ação. Em resultado da consulta, a maior parte das Igrejas protestantes concordaram com um domingo fixo para a data da Páscoa e o Patriarcado ecuménico também se mostrou aberto a tal proposta (com a condição de que todas as Igrejas estivessem de acordo), mas Roma deu uma resposta negativa. Toda a iniciativa daquela que entretanto se tornou a ONU fracassou definitivamente em 1955 com a recusa do governo dos EUA em adotar um novo calendário.
Em 1964 a situação no interior das Igrejas mudou, na medida em que a Igreja católica, no decreto conciliar Orientalium ecclesiarum (§ 20) afirmou a sua disponibilidade para uma data comum, tanto fixa como móvel, desde que todas as Igrejas partilhassem a solução. Noutra consulta, encetada pelo Conselho ecuménico das Igrejas no seguimento desta mudança de atitude, a maioria das Igrejas ocidentais mostrou preferência por uma data fixa, enquanto para as Igrejas ortodoxas continuou a ser importante a observância da regra de Niceia.
Em 1977 a Igreja católica encetou uma iniciativa de entendimento com o Conselho ecuménico das Igrejas que conduziu a outro inquérito com um resultado idêntico ao precedente. Os ortodoxos afirmaram também claramente que uma decisão sobre semelhante questão só poderia ser tomada a nível pan-ortodoxo. Assim discutiram o assunto durante os trabalhos preparatórios do Concílio pan-ortodoxo. A segunda conferência pan-ortodoxa pré-conciliar propôs, por isso, em 1982 em Chambésy, uma mais precisa definição da data da Páscoa segundo a regra de Niceia. Mas exprimiu também o receio de que uma mudança de calendário provocasse novos cismas. Por isso, considerou-se que o momento não era apropriado para semelhante mudança.
Entre as Igrejas ortodoxas orientais havia maior abertura para a mudança: em 1971 a Igreja siro-ortodoxa propôs que se fixasse a data da Páscoa no domingo seguinte ao segundo sábado de abril e em 1984 declarou a sua própria disponibilidade para celebrar a Páscoa em qualquer domingo de abril, com a condição de que todas as Igrejas estivessem de acordo.
A questão regressou, em seguida, ao Conselho ecuménico das Igrejas. A iniciativa de maior importância foi uma consulta em 1997 em Aleppo, organizada pelo secretariado da Comissão Fé e Constituição a convite do metropolita siro-ortodoxo Gregorios Yohanna Ibrahim. A consulta propôs que se mantivesse a regra de Niceia, mas usando os dados astronómicos mais precisos (nem o calendário gregoriano nem o juliano e os seus respetivos ciclos pascais), tendo por base o meridiano geográfico de Jerusalém. A proposta foi enviada às Igrejas para que a examinassem. O resultado foi que as Igrejas do ocidente estiveram de acordo, enquanto as Igrejas ortodoxas acharam difícil aceitar a proposta, na medida em que os dados astronómicos precisos estabeleceriam um calendário demasiado próximo do gregoriano. A mudança seria, pois, tão substancial que não poderia ser aceite pelos fiéis.
Na sua IX Assembleia geral de 2006 em Porto Alegre (Brasil), o Conselho ecuménico das Igrejas reafirmou que uma data comum para a Páscoa seria parte do progresso rumo à unidade visível dos cristãos, mas não assumiu nenhuma iniciativa.
A questão só reemergiu recentemente, quando em 2014 Tawadros II, papa da Igreja copto-ortodoxa, pediu ao papa Francisco que realizasse um novo esforço para uma data unificada da Páscoa e discutiu o assunto também com o Patriarca ecuménico. Em maio de 2015, Tawadros deu mais um passo, propondo que se fixasse a Páscoa no terceiro domingo de abril. Um mês depois o papa Francisco expressou desejo de estabelecer uma data comum para a Páscoa e reafirmou a disponibilidade da Igreja católica no que respeita a uma data fixa. O papa ainda discutiu isto com o Patriarca siro-ortodoxo, que também pareceu pronto para tal solução. Mas uma declaração de um porta-voz do Patriarcado de Moscovo esclareceu logo que a Igreja ortodoxa russa não abandonaria a regra de Niceia e não aceitaria uma data fixa: convidava antes católicos e protestantes a adotarem o calendário juliano. Em janeiro de 2016, o arcebispo de Cantuária declarou que vislumbrava a possibilidade de um acordo sobre uma data fixa para a Páscoa no espaço «de cinco a dez anos».
Se se analisar o conjunto da discussão, a situação pode ser sintetizada em duas orientações: as Igrejas ocidentais e as ortodoxas orientais estão dispostas a uma data para a Páscoa fixada num determinado domingo de abril; as Igrejas ortodoxas têm intenção de manter a data móvel segundo as regras de Niceia. Isto levanta a questão de se será alguma vez possível encontrar uma data comum. Para avançar nestas reflexões, toda a questão precisa de ser vista mais em detalhe. Um ponto importante para os ortodoxos é um ulterior critério ligado às decisões do concílio de Niceia: a Páscoa não pode ser celebrada em concomitância com a judaica. Esta regra foi interpretada de vários modos e impede ulteriormente a abertura à mudança [4]. Mas o problema principal para os ortodoxos parece ser concretamente o receio de divisões no interior das Igrejas ortodoxas. E esta preocupação tem de ser levada a sério.
Concluindo, parece claro que deslocar a data da Páscoa para um dia fixo (um domingo de abril) seria uma mudança radical, porque pelo menos durante 1500 anos a Páscoa sempre foi celebrada num domingo móvel, tendo por base o equinócio e a lua cheia. Uma mudança semelhante romperia também com a tradição de indicar uma ligação com a Páscoa judaica, mantendo ao mesmo tempo uma clara distinção entre as duas. Uma data fixa num domingo específico de abril seria uma solução pragmática, em linha com a tendência atual de organizar a vida tendo por base as necessidades determinadas pela sociedade civil. Mas a discussão também tem mostrado que esta solução dificilmente poderá ser aceite por todas as Igrejas.
A meu ver, a única solução com possibilidades realistas de sucesso – mas que nunca foi tida em consideração a nível mundial – passaria por todas as Igrejas se unirem ao método ortodoxo de fixarem a data da Páscoa, usando o calendário juliano. Esta proposta não é nova: é praticada a nível local no Egito e na Jordânia, onde – seguindo uma indicação do Conselho das Igrejas do Médio Oriente de 1994 [5] – as Igrejas ocidentais decidiram seguir a maioria ortodoxa. Esta solução permite seguir a regra de Niceia que atualmente une todas as Igrejas cristãs e tem em consideração tanto a ligação entre a Páscoa e o ciclo da natureza como o seu significado simbólico vinculado à impressionante irrupção da ressurreição no habitual fluxo dos acontecimentos naturais. A desvantagem consistiria no facto de que o equinócio e a lua cheia astronómicos, e portanto reais, não seriam respeitados, mesmo se simbolicamente tidos em consideração. A partir do momento em que as Igrejas ocidentais estão dispostas inclusivamente a renunciarem à regra de Niceia, poderiam antes renunciar – por amor à unidade – à ideia de seguir a precisão astronómica.

Dagmar Heller, para a Finestra Ecumenica do Mosteiro de Bose
Teóloga luterana, docente de Teologia ecuménica no Instituto Ecuménico de Bossey (Suíça)




[1] Uma regra que a tradição interpreta como decisão do concílio de Niceia de 325, mesmo se daquele concílio não temos documentos oficiais a esse respeito.
[2] Maiores detalhes no meu artigo “The Date of Easter – A Church Dividing issue?”, in Ecumenical Review 48/1996, 392-400..
[3] Enquanto noutros países de maioria ortodoxa os cristãos estavam habituados a terem dois calendários – um para o âmbito secular e outro para a vida eclesial – na Grécia a população estava acostumada a que o calendário civil fosse idêntico ao eclesiástico.
[4] A dificuldade consiste em saber se este conceito deve ser entendido em relação à data da Páscoa no tempo de Jesus ou em relação à atual data de Pesach, determinada por modalidades ligeiramente diferentes relativamente aos tempos de Jesus.
[5] Memorandum “Uma data unificada para a Páscoa”, V Assembleia do MECC, 15-21 de novembro de 1994, Limassol, Chipre.