03/02/2018

Um diaconado renovado completa a Igreja

Nos últimos séculos, o diaconado gozou apenas de um papel simbólico ou de transição na Igreja. O clero paroquial é ordenado ao presbiterado só depois de servir brevemente no diaconado. É como se os diáconos esperassem «seguir em frente!» ou «moverem-se para cima!». O diaconado foi reduzido a pouco mais do que uma preparação ou premissa para o presbiterado ou para o episcopado. Os dois últimos degraus são muitas vezes considerados mais significativos no ministério ordenado, enquanto o diaconado se assemelha a um tipo de sub-presbiterado, raramente percebido como uma função permanente.
Mas não foi sempre esse o caso. Juntamente com o bispo e os presbíteros, os diáconos foram considerados por Inácio de Antioquia, no final do século I, parte essencial da estrutura da igreja, que realiza sua unidade  de forma mais completa e abrangente  quando a comunidade está «com o bispo e os presbíteros e os diáconos que estão com o bispo... Sem eles», acrescenta Santo Inácio, «[a comunidade] não pode ser chamada de igreja» (Carta aos Tralianos).
São João Crisóstomo lembra-nos o modo como a Igreja primitiva enetndeu os diáconos quando observa: «até os bispos são chamados de diáconos» (Homilia sobre a Carta aos Filipenses, 1). Na verdade, no tempo dos apóstolos, não há indicações de que o diaconado fosse uma condição ou requisito para a elevação ao presbiterado. É por isso que estou convencido de que não pode haver uma compreensão clara do presbiterado  ou mesmo do episcopado  se não apreendermos e apreciarmos primeiro o diaconado em si mesmo. Assim, no início do século VII, Isidoro de Sevilha afirmou corajosamente que, sem o ministério dos diáconos, o presbítero tem o nome, mas não o oficio; o presbítero consagra, reza e santifica; mas o diácono dispensa, recita e partilha (De Ecclesciasticis Officiis).
Uma visão mais completa do ministério ordenado tem de reconhecer o papel do bispo como o vínculo da unidade e o porta-voz para a doutrina. Da mesma forma, tem respeitar o papel do presbítero na celebração da presença de Cristo na comunidade local. No entanto, também tem de perceber o papel do diácono como servidor que completa e complementa esse círculo de unidade e comunidade na Igreja local. O serviço dos diáconos vai além da liturgia e chega à comunidade como um dom na administração, na educação, na orientação pastoral e espiritual e no trabalho juvenil. E, na minha opinião, esses papeis podem ser facilmente realizados tanto por homens como por mulheres.
A nossa teologia do ministério ordenado  atualmente vista como uma pirâmide com o episcopado no topo  tem de ser invertida, começando não de cima para baixo, mas brotando da noção elementar e essencial da diaconia; refletindo aquele que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida» (Mc 10, 45); serviço e sacrifício sem os quais nenhuma das ordens sacerdotais faz qualquer sentido. Qualquer revolução na nossa apreciação e realização do ministérios ordenado, em toda a sua amplitude e diversidade, em última análise, virá de baixo para cima, a partir das bases. É aí que os nossos fiéis sabem o que importa e o que funciona na igreja. É também aí que os nossos fiéis percebem as dimensões e as implicações mais amplas do ministério pastoral. É por isso que é crucial que ocorra uma revitalização do diaconado, tanto para uma reorientação do nosso ministério ordenado como para uma revitalização do nosso ministério pastoral.
Agora, ao mesmo tempo que mantém um sentido de simetria dentro do ministério ordenado, o diaconado também mantém um equilíbrio de poder na Igreja. Creio que está aqui o coração do problema: a resistência feroz da Igreja a qualquer desafio à sua atual autoridade institucional. Temos de aprender a procurar uma atitude de humildade e não de poder, a praticar formas eclesiais impregnadas pela simplicidade e não pela cerimónia, a manter uma visão de transformação da Igreja de uma organização hierárquica numa comunidade de serviço, sem nostalgia do passado, mas com abertura em relação ao Reino.
Sem diáconos, uma paróquia torna-se progressivamente insular em vez de católica, mais paroquial do que global. Os diáconos asseguram a dimensão universal da igreja. Os diáconos são, de muitas maneiras, o elo que falta na preservação da plenitude da doutrina da Igreja ou, no mínimo, na prevenção de um certo «monofisismo» na igreja institucional. Bem sabemos que a Igreja prega um Deus  entendido como Trindade e uma Igreja concebida como comunidade.
Se entendermos adequadamente o diaconado, também entenderemos melhor as outras ordens do ministério ordenado. Compreendemos porque é que e as mulheres podem naturalmente  com isto quero dizer, segundo a tradição e não como exceção — participar do diaconado sem que tal provoque receio da sua ordenação para o presbiterado ou da discussão teológica anterior sobre o ministério ordenado masculino. O diálogo sincero sobre o ministério ordenado só pode enriquecer o nosso apreço tanto por ele como pelo sacerdócio real. E «se essa ideia ou obra é de origem humana, falhará; mas se for de Deus, ninguém poderá derrubá-la" (At 5, 38-39).
Desta forma, o diaconado será expandido e potenciado de modo a refletir uma expressão ministerial moderna, se bem que enraizada na experiência apostólica histórica. Afinal, para além da administração e da autoridade na Igreja, há o serviço e... o servir. Para além da observância da liturgia e dos sacramentos, está a atenção às pessoas, qual altar vivo do Corpo de Cristo. Talvez os diáconos despertem gradualmente outros ministérios novos, não restritos às funções e expectativas tradicionais. Um renascimento criativo do diaconado para homens e mulheres no nosso tempo pode converter-se em fonte de ressurreição para o ministério ordenado como um todo, desempenhando assim um papel crucial na mais ampla missão da Igreja. A este respeito, a restauração do diaconado pode bem revelar-se tão oportuna quanto vital.

John Chryssavgis
Diácono da Diocese Ortodoxa Grega da América
Public Orthodoxy (1 dez 2017)

01/02/2018

Roteiro Ecuménico de Oração 2018


No seguimento de edições anteriores, a Comissão Ecuménica do Porto apresentou no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o Roteiro Ecuménico de Oração para o ano 2018 para a cidade do Porto.
Em janeiro de 2018, numa declaração conjunta assinada pelo presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, Cardeal Angelo Bagnasco, e pelo presidente da Conferência das Igrejas Europeias, o Bispo Anglicano Christopher Hill, exortaram as comunidades dos vários países europeus a “perseverarem no caminho ecuménico” e a fazerem da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, uma ocasião para “gerar esperança nova”.
O novo roteiro é em si uma proposta para que as diversas Igrejas e cristãos do grande Porto partilhem entre si e ao longo de todo o ano os dons espirituais e materiais dados por Cristo. Neste sentido e através de celebrações e encontros em conjunto, haverá uma partilha da riqueza espiritual de cada tradição eclesial na vivência especifica de cada proposta. 
O Roteiro Ecuménico 2018 proporciona aos cristãos das diferentes confissões, interessados na busca da unidade entre os cristãos, um caminho de conhecimento da diversidade eclesial e relação fraterna.
Na Carta Ecuménica para a Europa de 2001, foi assumido o compromisso de celebrar juntos a mesma Fé na vivência das diferentes tradições eclesiais, rezar uns pelos outros e pela unidade dos cristãos, em aprender a conhecer e a apreciar as celebrações e as outras formas de vida espiritual das outras Igrejas.
Neste sentido, a Comissão Ecuménica do Porto a todos lança o desafio de participarem com alegria neste roteiro.

11/01/2018

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2018


A tua direita, Senhor,
resplandeceu de poder
(Ex 15,6)

Subsídios preparados e publicados em conjunto pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas.

As Igrejas do Caribe foram escolhidas para preparar o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018. O Caribe atual está profundamente marcado pelo projeto pouco respeitoso da exploração colonial. Muito lamentavelmente, durante quinhentos anos de colonialismo e escravidão, a atividade missionária cristã na região, com exceção de uns poucos destacados exemplos, esteve muito ligada a esse sistema de cunho desumano e justificava-o e reforçava-o de muitas maneiras. Enquanto aqueles que levaram a Bíblia para essa região usavam as Escrituras para justificar a subjugação do povo dominado, nas mãos dos escravizados ela tornou-se uma inspiração, uma garantia de que Deus estava do lado deles e de que Deus os conduziria à liberdade.
Hoje os cristãos caribenhos de diferentes tradições veem a mão de Deus a agir para pôr fim à escravidão. É uma experiência de união em torno da ação salvadora de Deus que leva à liberdade. Por essa razão, foi considerada muito adequada a escolha do canto de Moisés e Miriam (Ex 15, 1-21) como motivação para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018.

Subsídios (versão em português do Brasil):
                 Em texto corrido
                 Em ficheiro pdf
               

Ecumenismo: Um caminho sempre retomado

O início de um novo ano é sempre um tempo de esperança. É o tempo dos projectos, dos propósitos mais ou menos voluntariosos, das decisões que queremos honrar.
É neste início de ano que, há mais de um século, os cristãos das diversas tradições eclesiais – católicos, protestantes, ortodoxos, anglicanos… – são convidados a uma semana mais intensa de oração pela unidade. Como se, também aqui, fôssemos convidados a reacender a esperança, a procurar na oração comum, na escuta e partilha da palavra, nos gestos fraternos, a força para prosseguir a nossa missão comum de testemunharmos a novidade de Jesus, vivo e ressuscitado, como irmãos e irmãs, e de semearmos no nosso dia-a-dia a reconciliação e a confiança.
Este ano, a proposta internacional chega-nos dos cristãos das Caraíbas. Com eles, vem a memória dorida de um passado associado ao colonialismo, à escravatura, ao tratamento desumano do outro.
A novidade cristã foi aqui simultaneamente instrumento de opressão, trazida pelos colonizadores, e instrumento de libertação, quando encarnada na vida dos povos indígenas.
O canto de Moisés, erguido após a passagem do mar Vermelho, é relembrado como expressão dessa liberdade que Deus quer trazer à vida dos homens e mulheres em todos e cada um dos tempos.
A interpelação que aqui nos é lançada obriga-nos a não fazer do ecumenismo apenas algo de espiritual, íntimo, desencarnado da vida. A novidade cristã rompe a aparente vitória do mal e da morte, destrói tudo o que esmaga ou aprisiona cada ser humano. Ser de Cristo faz de cada um dos seus discípulos profetas, construtores de um mundo mais solidário e fraterno, denunciando e lutando contra todas as situações que diminuem ou esmagam a dignidade humana. E isto pode e deve fazer-se também em clave ecuménica.
Este pode ser também um desafio para este ano de 2018, em que comemoraremos vinte anos sobre o início do trabalho ecuménico com os jovens em Portugal e a celebração do primeiro Fórum Ecuménico Jovem. Desde Leiria, em 1999, até hoje, os Fóruns Ecuménicos, esses encontros nacionais de jovens oriundos de diferentes Igrejas, foram um desafio a descobrir a beleza e a urgência do caminho ecuménico. Percorrida a grande maioria das dioceses portuguesas, os fóruns foram-se prolongando em iniciativas mais locais, de oração, de reflexão, de compromisso social, de encontro. Se este é um tempo de dar graças a Deus pelo caminho percorrido, é também um tempo para recomeçar sempre de novo. Porque é preciso dizer, uma vez mais, que é muito mais o que nos une que o que nos separa. Que Cristo já nos reconciliou e chama-nos a ser instrumentos da sua reconciliação. Que é Ele quem quer que sejamos um, para que o mundo creia.

João Luís Fontes
Grupo Ecuménico Jovem
Além-mar n. 676 (Janeiro de 2018) 13